Governo aposta no euro - Miguel Ignatios
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de janeiro de 1999
Miguel Ignatios 
Ao contrário deste ano, quando o governo teve de enfrentar fortes pressões para desvalorizar o real, em 99, ele não precisará se preocupar com esse assunto. Ao longo do Plano Real, a moeda brasileira foi desvalorizada 5%, em média, ao ano. Apesar disso, ela continua sobrevalorizada cerca de 20% em relação ao dólar. Com a entrada em vigor do euro - a moeda da Comunidade Européia -, a partir do dia 1º de janeiro, espera-se ao longo do ano uma desvalorização da moeda americana em relação às divisas européias nesse mesmo percentual. Isso deverá acontecer em consequência da coordenação das políticas de importação e exportação daquele bloco de nações.
Em outras palavras, ao encerrar-se 99, o real, que está atrelado ao dólar, poderá desvalorizar-se nada menos do que 25% (20% por causa da desvalorização do dólar em relação às moedas européias e mais 5% das minidesvalorizações anuais) em relação a seus principais parceiros comerciais europeus. Tal desvalorização também acontecerá em relação às moedas dos tigres asiáticos, ajudando a recuperar um pouco a competitividade das exportações brasileiras para tais mercados.
Ora, isso é tudo o que as autoridades brasileiras queriam: fazer uma desvalorização do real sem mexer na paridade da moeda. Dessa forma, recupera-se a competitividade das exportações e mantém-se a credibilidade junto à comunidade financeira internacional e aos credores e investidores estrangeiros. É claro que o governo deverá aproveitar a folga da conjuntura externa favorável para arrumar a casa.
Enquanto o Brasil fizer a lição de casa (reduzir o déficit público, completar as reformas já encaminhadas e definir a reforma tributária e fiscal), o euro começará a criar as condições para um novo ciclo de investimentos. Isso tenderá a ocorrer já no segundo semestre do ano, se países como China, Japão e outros da Ásia incluírem a divisa européia na composição de suas reservas internacionais.
A rápida valorização do euro acarretará duas consequências imediatas: o aumento das exportações dos Estados Unidos, do Japão, dos tigres do Sudeste Asiático e também latino-americanas, especialmente brasileiras e argentinas, para a Europa; e, em contrapartida, a elevação do fluxo de investimentos diretos dos países da zona do euro para os Estados Unidos, Mercosul, Japão e Sudeste Asiático.
Tal ciclo poderá durar de meados de 99 até 2001 e tenderá a gerar outro a partir daí com a retomada dos investimentos americanos no mundo todo, visando a manter a competitividade de seus produtos de exportação vis-à-vis os similares europeus, nipônicos e sul-americanos. E assim sucessivamente ao longo da primeira década do século 21.
Para aproveitar os investimentos americanos, europeus e nipônicos, as autoridades brasileiras terão de agir rápido, concluindo as reformas e investindo em educação básica, secundária e técnica maciçamente do ano 2000 em diante. Caso contrário, o País correrá o risco de ser excluído da década de ouro da globalização da economia.
Há tempo para se arrumar a casa. Em tal contexto, até mesmo o empréstimo standby negociado com o FMI veio a calhar. O único problema para o qual o governo precisa estar atento é a ameaça de agravamento do desemprego.
Portanto, as prioridades do País em 99, mantidas as perspectivas otimistas da conjuntura internacional, são apenas duas: concluir as reformas e adotar programas emergenciais para elevar o nível de emprego.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)


