Quase ninguém gosta de ir à prefeitura. Ninguém acorda satisfeito porque precisará telefonar para reclamar de um buraco, do mato alto em uma praça, da falta de iluminação pública, da demora no atendimento de uma unidade de saúde ou da ausência de um serviço que deveria funcionar normalmente.

As pessoas raramente elogiam o caminhão de lixo que passou no horário, a praça que permaneceu limpa ou a árvore que foi podada antes de comprometer a calçada. Os serviços públicos tornam-se visíveis justamente quando deixam de cumprir sua função.

A administração pública existe para que essas preocupações não ocupem o tempo das pessoas. A boa administração produz normalidade. Quando funciona bem, quase não é percebida. E administrar a coisa pública não é meramente fazer política. Embora a política seja fundamental na atividade administrativa, há diferença do que se faz na atividade legislativa e no executivo. O Parlamento existe para representar, deliberar, convencer e produzir normas. Sua atividade é essencialmente política. Já o Executivo possui uma missão distinta. Sua função não consiste apenas em formular escolhas, mas em transformar essas escolhas em realidade. Enquanto no Parlamento a palavra convence, no executivo ela precisa transformar-se em resultado.

Costumamos ensinar que a Constituição separa os Poderes para impedir abusos e evitar a concentração do poder. A explicação está correta, mas é incompleta. A Constituição também distribui funções porque reconhece que legislar, administrar e julgar exigem competências, métodos e racionalidades diferentes.

Vivemos, porém, um tempo em que administradores públicos se comunicam mais do que nunca. Nunca houve tantos vídeos, postagens e canais diretos de comunicação com a população. Mas essa presença constante nem sempre é acompanhada da mesma capacidade de resolver os problemas concretos das cidades.

É nesse ponto que reside a complexidade da gestão pública. Administrar uma cidade não significa apenas formular boas ideias ou comunicar decisões. Significa organizar uma das estruturas mais complexas existentes em qualquer comunidade. São milhares de servidores, contratos administrativos, licitações, planejamento orçamentário, tecnologia, equipamentos públicos, integração entre secretarias, controle de gastos, órgãos de fiscalização e uma infinidade de atividades que precisam funcionar de forma coordenada todos os dias.

Por isso, não se administra uma cidade por meio de vídeos ou postagens em redes sociais. Esses instrumentos aproximam governos da população e fortalecem a transparência, mas possuem uma função complementar. Nenhuma rua é pavimentada pelo alcance de uma publicação. Nenhuma fila de atendimento diminui pelo número de visualizações de um vídeo. Nenhuma praça deixa de estar suja porque um algoritmo ampliou o engajamento de uma postagem. Comunicação produz percepção. Administração produz realidade.

Isso talvez explique por que se tornou tão frequente a predominância de discursos destinados a responder às disputas políticas ou às redes sociais, muitas vezes acompanhados de narrativas justificadoras ou meramente ideológicas, enquanto o conhecimento técnico, o planejamento, os indicadores de desempenho e a avaliação de resultados permanecem em segundo plano. A comunicação institucional passou a ocupar um espaço que deveria pertencer à administração pública. É a lógica da comunicação substituindo a gestão. Isto precisa ser revertido para que se garanta efetivamente a resolução de problemas que atingem a comunidade.

Denunciar isto não significa diminuir a importância da política. Toda boa administração depende da política. É ela que define prioridades, estabelece objetivos e confere legitimidade democrática às escolhas públicas. Mas a política, sozinha, não administra. A realização dos direitos por meio da realização de políticas públicas, bem como das atividades administrativas previstas na Constituição depende de algo menos visível e muito mais complexo: uma administração pública capaz de transformar decisões em resultados concretos. A Constituição reconheceu que diferentes tarefas exigem diferentes capacidades.

Talvez esse seja um dos desafios mais importantes do nosso tempo. As redes sociais premiam presença. A política recompensa visibilidade. A Constituição, porém, continua exigindo resultados. Entre convencer a população e garantir que a cidade funcione existe uma distância que nenhuma estratégia de comunicação consegue percorrer.

O bom parlamentar não é necessariamente um bom administrador. E o bom administrador não é necessariamente um bom parlamentar. A Constituição compreendeu isso ao atribuir funções distintas a cada Poder. É bom que todos compreendamos isso também. Afinal, o maior sucesso de uma administração pública talvez seja exatamente este: permitir que as pessoas vivam suas vidas sem precisar interrompê-las para resolver problemas que o próprio Estado deveria prevenir ou solucionar.

João Luiz Esteves, professor de direito constitucional e direito administrativo da Universidade Estadual de Londrina

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