Nossos governantes, com raras exceções, demonstram pouquíssima capacidade administrativa. Para equacionar receitas e despesas, não mais se contentam em, apenas, criar ou aumentar os impostos. Diante de uma sociedade contribuinte que não mais suporta a elevada carga fiscal, passaram a se utilizar de um artifício para fazer caixa. Depois do uso indevido dos precatórios, a última moda, para cobrir os rombos provocados pelo mau gerenciamento das contas governamentais, é o uso indiscriminado das privatização e concessões de bens e direitos públicos. Descurando do interesse coletivo, não levam em conta que a transferência, para particulares, de parte do patrimônio público é um procedimento que só legitima se tiver como consequência o enxugamento, a racionalização e a desoneração da máquina estatal. E que a isto corresponda uma efetiva redução da sobrecarga tributária para alívio dos contribuintes, sem prejuízo da qualidade e quantidade dos serviços prestados.
Se não forem preenchidas estas premissas fundamentais, em todos os processos de desestatização - tanto na venda de bens e empresas estatais quanto na concessão ou permissão de serviços e direitos públicos - já indícios de grave lesão de patrimônio estatal, ou seja, ao interesse de toda a sociedade.
Não se pode aceitar a confusão que, muitas vezes, se faz entre as necessidades deste ou daquele governo de plantão, naturalmente passageiro, com os reais interesses do Estado que é, evidentemente, perene.
Uma cena do filme ‘‘A volta ao mundo em oitenta dias’’, baseado no livro de Júlio Verne, mostra, muito claramente, como agem certos governantes, que nada têm de estadistas, em relação ao barco estatal. Os seus procedimentos ante o Estado (municípios, estados e país) que governam, de certa forma, são representados pelas atitudes do comandante do vapor que transportou os memoráveis personagens Fíleas Fogg e seu fiel camareiro, de volta a Londres, após imensas peripécias ao redor do mundo. Em troca de alguns trocados, oferecidos pelo aventureiro inglês, o barqueiro é convencido a lançar, nas fornalhas que movimentam os motores da embarcação, todas as peças do navio - portas, janelas, forros, estruturas, móveis, cortinas etc. - que pudessem servir de material combustível para manter em funcionamento as caldeiras propulsoras, sem o que a aposta de rodear a Terra em onze semanas e três dias estaria definitivamente perdida. Nesta clássica película, que consagrou os atores David Niven e Cantiflas no cinema mundial, a platéia aplaudiu a decisão do comandante que, assim, em total desapreço à própria embarcação, permitiu que mais uma vez o mocinho levasse a melhor.
Na vida real, no entanto, há menos mocinhos e, em se tratando de gestão da coisa pública, são muitos os facínoras que se travestem de bons moços. Os maiores, em geral, são os comandantes governamentais que não se importam em entregar o barco estatal - que juraram preservar e defender - inteiramente destruído, ao fim da viagem. Poder-se-ia desculpá-los, em parte, uma vez que, mal assessorados, eles não têm a exata noção da própria incompetência e do quanto têm sido lesivas, à sociedade que os elegeu, as suas fugazes e malfazejas gestões governamentais.
Em todo o Brasil, são milhares de casos de barcos estatais que chegam em finais de perniciosos mandatos totalmente dilapidados.
Por isto, é importante que o povo, ao se aproximar o tempo de escolher novos comandantes, examine qual, dentre os candidatos aí presentes, está mais capacitado a trazer de volta e intacto o navio ‘‘Estado’’ que inicia novo cruzeiro no primeiro dia do ano que vem.
Sem esquecer que qualquer semelhança com o mercenário barqueiro do filme pode não ser mera coincidência.
- JOSÉ LUIZ SHUCHOVSKI é arquiteto, construtor e ex-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção - CBIC.

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