Máximo Gorki - um dos maiores escritores da Rússia, nunca frequentou uma universidade, aliás foi alfabetizado quase adulto - ironicamente escreveu, no início do século, ‘‘Minhas Universidades’’. Neste livro, Gorki descreve Kukuchkine, um dos muitos camponeses que conheceu em suas infinitas andanças. Morando numa aldeia da Ucrânia, Kukuchkine, iletrado, tinha o costume de contar histórias, uma mais mentirosa que a outra. A aldeia considerava Kukuchkine um homem fútil e suas histórias irritavam a todos e provocavam injúrias. Mas o que intrigava Gorki era que o contador de histórias sempre reunia uma multidão em torno de si. E dá-lhe mentir. Analisando tal personagem, Gorki conclui que, na realidade, as pessoas esperavam encontrar no meio de tanta invenção alguma pontinha de verdade. É lógico que nunca encontravam.
Quando ouço algum político derramando seu discurso baba bovina que escorre do aparelho de TV e invade minha sala, lembro logo de Kukuchkine. Eu os escuto esperando alguma verdade, mínima que seja, dissimulada talvez. Mas que nada, eles nos enganam. E como desgraça pouca é bobagem, na próxima eleição tornarão a nos enganar.
Em três dias, em 1751, Voltaire escreve ‘‘Cândido’’, um escárnio, ataque direto às idéias de Jean-Jacques Rousseau. Voltaire cria o culto Pangloss, professor de metafisicoteologicocosmonigologia. Pangloss era mestre de Cândido e sua filosofia um poço de absurdos. Para Pangloss, tudo no mundo é necessariamente para o melhor dos fins. No sistema deste sábio, as coisas foram criadas na melhor das intenções: o nariz para sustentar óculos; os pés, visivelmente projetados para calçarem meias; as pedras para construir castelos; e assim por diante. Vejo o professor Fernando Henrique - amigo e conselheiro de Deus - na sua retórica do país das maravilhas e sinto que Pangloss vive entre nós. A fome no Nordeste foi criada para que o governo federal demonstre sua grande capacidade de planejar instrumentos para combatê-la. Os sem-terra existem porque o governo tem um grande plano de assentamento. Os desempregados vicejam pelo país devido aos grandes projetos para a criação de 7 milhões de empregos. É, nosso Pangloss sociólogo nos ilude de forma sofisticada. Afinal, somos caipiras, matutos que engolem qualquer balela; em uma única palavra: otários.
Nesta semana encontrei um desempregado num bar. Falou-me que estava tentando criar coragem para chegar em casa e encarar a mulher e a filha pequena. Contava sua história para mim e para o dono do bar. Mostrou-me as mãos tomadas pelos calos sobreviventes da época em que tivera trabalho. ‘‘Daqui uns dias vira mão de moça’’, observou. Jovem ainda, ele vivia agora de pequenos biscates. No meio da conversa, o desempregado tirou do bolso um monte de panfletos de um candidato a deputado e pediu-me para jogá-lo no lixo. Trabalhara o dia inteiro distribuindo panfletos nas ruas e o ‘‘pilantra’’ simplesmente não pagara seu serviço. Segurou as lágrimas e continuou sua história.
Eu apenas ouvia. Pensava em alguma coisa para dizer e consolar aquele pai de família sem trabalho. Podia dizer-lhe que o IBGE já o contabilizava como um desempregado, que o governo tinha um grande projeto para os próximos quatro anos - afinal ele era um cara importante, pois sem ele, o que seria da estatística do IBGE? Como o governo iria justificar seus magníficos planos? Como mentir e fazer promessas eleitoreiras na TV?
Fiquei calado e naquela noite não dormi direito.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina

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