GOLE CARO - Redução do preço de bebidas alcoólicas aumenta mortalidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 2,3 milhões de pessoas morrem por ano no mundo todo devido a problemas relacionados ao consumo de álcool. Estudo realizado na Finlândia, recentemente divulgado pelo CISA - Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, trouxe outro dado que alavanca ainda mais os índices nada animadores: a redução do preço de bebidas alcoólicas provoca um crescimento significativo no número de casos de morte entre os bebedores. No país escandinavo, os óbitos subiram em 16% entre os bebedores homens e 31% entre as mulheres. Nas palavras do médico gastroenterologista Wilson Catapani, que é presidente do Conselho Científico do CISA - organização não governamental com sede em São Paulo - reduzir o preço das bebidas seria o mesmo que empurrar atuais e potenciais bebedores rumo ao precipício.
Nesta entrevista à FOLHA, ele sugere o aumento do preço das bebidas e defende políticas públicas globais que afastem a população do primeiro gole. ''O problema em relação ao consumo de álcool e suas consequências é mundial. A principal diferença é que no Brasil existe um relaxamento das leis quando a comercialização e o uso do álcool estão em pauta'', dispara.
A redução de preço das bebidas alcoólicas é bom negócio para quem?
Com a diminuição do custo, o consumo de bebidas alcoólicas torna-se mais acessível a quem não tinha condições de fazê-lo anteriormente, especialmente jovens e populações de menor nível sócio-econômico. Este público passa a sentir-se estimulado a experimentar álcool e quem sabe, assumir um consumo que, ao aumentar um pouco mais a cada dia, torna-se regular, podendo acarretar, dependendo do padrão com que seja realizado, uma série de problemas ao bebedor. Entre eles, podemos citar as situações de abuso, dependência e acontecimento de traumas que podem levar à incapacidade ou mesmo a óbito. Em linhas gerais, com a redução do preço de bebidas alcoólicas, quem perde é o bebedor.
Recente estudo trouxe: 7,2% das mulheres faziam uso excessivo de álcool. As mulheres, de fato, estão consumindo mais álcool? Há uma explicação?
Sim e a causa é multifatorial. O papel social e a independência financeira que as mulheres vêm desempenhando é fator de relevância. Em nossa sociedade, tem havido uma convergência dos papéis sociais entre homens e mulheres, então, é de se esperar que seja extensivo a outros comportamentos, entre eles, o de beber. Nos dias de hoje, a aceitação social desse comportamento também é fator de relevância, ou seja, elas já podem beber em um bar, o que era reprovável anos atrás.
Os bebedores e alcoólatras têm consciência dos efeitos do álcool em suas vidas?
Em um primeiro momento, acredito que não. Acham que estarão imunes a toda e qualquer consequência do uso de álcool, e utilizam-se de desculpas para si próprios para minimizar seus efeitos. Nunca admitem que estão bebendo demais. Costumam ter uma percepção mais tardia, geralmente quando já existem danos orgânicos importantes, como cirrose ou pancreatite crônica. Porém, assim mesmo, uma parcela significante tem muita dificuldade para manter-se em abstinência.
Subir o preço das bebidas é a solução?
Não somente. Subir o preço das bebidas pode ter efeitos importantes para reduzir o consumo, especialmente das bebidas que são mais baratas e mais consumidas, como a cachaça. Esta medida, porém, surte mais efeito para os bebedores com menor poder aquisitivo, tendo um impacto reduzido nas camadas de maior nível socioeconômico. Porém, subir o preço de bebidas alcoólicas não é a única solução. É preciso um conjunto de medidas. A princípio, a interferência não deve restringir-se apenas à comercialização, mas também à produção de álcool.
A OMS tem promovido ações nesse sentido...
Exato. Trata-se de uma preocupação atual da Organização Mundial de Saúde. É preciso fazer um levantamento dos pontos ilícitos de produção de álcool e controlar a qualidade da substância que tem sido produzida. Além disso, é preciso fiscalizar o cumprimento das leis em vigência, ou seja, proibir a venda de álcool a menores de idade, a comercialização em estradas, o comportamento de beber ou dirigir e aplicar as devidas punições aos infratores. Finalmente, o investimento em medidas e programas de prevenção é uma alternativa que deve ser sempre considerada, de tal forma que crianças e jovens devem ser constantemente informados a respeito das consequências advindas do consumo de álcool.
Levando-se em conta que o álcool mata 2,3 milhões de pessoas ao ano, como vê a relação do brasileiro com a bebida, no paralelo com outros países?
O problema em relação ao consumo de álcool e suas consequências é mundial. A principal diferença é que no Brasil existe um relaxamento das leis quando a comercialização e o uso do álcool estão em pauta. Por exemplo, vende-se bebida alcoólica a menores de 18 anos; vende-se bebida alcoólica em estradas, coloca-se em liberdade indivíduos dirigindo alcoolizados que atropelam e matam pedestres, num festival de situações para as quais a lei existe, mas não é cumprida. A predominância da impunidade faz com que tenhamos tantos casos sem desfecho e contabilizemos prejuízos.


