Eles faturam rios de dinheiro, são reconhecidos nos gramados, têm o mercado publicitário aos seus pés. Para muitos, a síntese dos heróis dos tempos modernos. Numa frequência que beira o banal, milionários do calção como Robinho, Ronaldo e Adriano veem seus nomes vinculados a acusações de estupro, calotes em travestis e noitadas regadas a bebidas e mulheres. Resultado: de príncipes, são convertidos, aos olhos do público, em sapos.

Para a psicóloga londrinense Ana Cláudia Raymundi, no universo onde só os galácticos, fenômenos e imperadores têm vez, a maturidade é requisito primeiro. ''A maturidade entra em jogo quando não existem exageros e a preocupação em resguardar a reputação se torna mais importante do que um momento de euforia'', acentua.

Os escândalos envolvendo ídolos do esporte têm uma justificativa? Esse jeito ''moleque'' de levar a vida é um traço ligado à educação?
O jeito moleque de levar a vida é um reflexo da maneira que muitas crianças e jovens estão sendo educados. Esse mundo onde tudo é permitido e as consequências são banalizadas acaba passando uma informação de que a onipotência do adolescente é real e positiva para a vida dele e da sociedade. Assim, não se aprende a ouvir e muito menos a dizer não. Não se aprende a ter limites.

Diz-se que o limite traz conforto, segurança...
Exato. Em alguns casos dos ídolos envolvidos em escândalos, não foi encontrado um limite. Continuam procurando saber até onde podem ir e nos surpreendem cada vez mais. Um dia é doping, no outro abuso de álcool e drogas, promiscuidade e hoje já se fala em abuso sexual. Quando se trata de um ídolo do esporte, ficamos ainda mais indignados. Talvez porque desde criança aprendemos que o esporte é saudável, ajuda a educar ensinando regras, limites a serem seguidos.

A fama traz o dever de bons exemplos?
Dinheiro e fama estão associados a uma sensação de poder, como se as pessoas ''endinheiradas'' e famosas estivessem acima de tudo e de todos. A pessoa famosa é ou tem algo que seus fãs almejam ser ou ter. Sendo assim, a fama traz, de maneira implícita, o dever de transmitir bons exemplos para a sociedade, que cobra isso a todos os momentos. É de conhecimento de todos, principalmente dos próprios famosos, que sempre há alguém vigiando, filmando ou perseguindo esses ''alvos''. Assim sendo, é no mínimo curiosa a revolta deles quando uma atitude mal pensada repercute de forma prejudicial na mídia, influenciando diretamente suas vidas e carreiras.

Mas como levar uma relação amistosa com o dinheiro e a fama sem meter os pés pelas mãos?
O primeiro passo é pensar nas consequências de seus atos. Se as consequências forem positivas para a pessoa e não prejudicarem terceiros, a fama e o dinheiro serão utilizados para uma qualidade de vida melhor. O problema é agir com irresponsabilidade, o que acontece na maioria dos escândalos, quando seus protagonistas estão alcoolizados, na noitada, entre outros exemplos.

Em tempos em que somos bombardeados por informações e induzidos ao consumo, é possível manter o foco?
Acredito que os profissionais do esporte começam essa vida porque realmente são bons e porque gostam do que fazem. É desse foco que estamos falando: ser esportista como profissional. Ou seja, o que está envolvido é esforço, treinos, dedicação, desenvolvimento e resultados. O dinheiro é consequência do trabalho. Quanto mais resultados, mais dinheiro. O que temos visto em muitos casos de esportistas é o contrário... Quanto mais dinheiro ganham, menos se esforçam. Acredito que por ser muito fácil ganhar todo esse dinheiro, ele perde o valor da conquista, do suor, do esforço. E até por ser uma quantia quase inesgotável, o consumo exagerado é natural.

O comportamento das pessoas ao redor desses ídolos favorece ou atrapalha? Como evitar situações vexatórias?
É fato que as pessoas que rodeiam os ídolos influenciam suas vidas, tanto de maneira positiva quanto negativa. Há aquelas em busca de seus cinco minutos de fama e aquelas que cercam seus ícones por admiração e curiosidade. Por ser difícil definir quem é quem em meio à multidão, é preciso tomar bastante cuidado com as atitudes, adotando a prevenção. Não aparecer em público fazendo o que bem entendem, sem pensar nas atitudes ou seus efeitos. Evitar exageros e badalações sem limites. Nada que um pouco de bom senso não resolva. Mas aqui fica a dúvida: será que eles querem deixar de produzir escândalos?

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