Gloria in excelsis Deo!
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de dezembro de 2002
José Fiori 
Quisera voltar no tempo para construir a ponte que cai sobre o rio de espelho trincado, fazer funcionar o monjolo parado, contemplar a estrela de Davi, reinar com o rei mago engessado, pastar com o carneirinho pastando, trabalhar com São José operário, consertar o anjo de asas quebradas, embalar no colo de Maria a Criança de olhos azuis, da cor do mar coruscante, ornamentar o presépio com pedrinhas do interior...
Plantávamos arroz que virava capim-alimento aos cordeiros do presépio. Recolhíamos lodo e barbas de árvores, resquícios de paus podres da mata ainda virgem, que até jabuticabas dava. Colecionávamos pedrinhas azuis e camelos colados com goma de café maduro arrancado da rama. Juntávamos pequenos brinquedos, bonecos, bolinhas de gude, outros cacos e capim fino de colchão verdejante, além de um patinho feio assanhado, de bico e olhos enormes, que nadava no rio de vidro, decorando a cena do nascimento na manjedoura.
Discutíamos qual era o nome verdadeiro de cada rei, suas competências, magias e poderes. Esquecíamos de lembrar Gaspar, Baltazar, Melquior... Construímos uma casa velha sem paredes, de telhas e palhas, cercada de paus, coqueiros e do verde capoeiral de cafezais em flor, rosas e cravos perfumados, lírios selvagens, samambaias, além de animais, o elefantinho de plástico, o burro inteligente, o galinho da Missa de Galo. Colocamos uma luzinha de farolete na cumeeira do barraco para acender o cometa que iluminava, precariamente, o presépio estrelado na mesa de caixas de madeira.
Naquele tempo, rezávamos muito. Era moda ser santo, delirar, levitar. Encenamos no advento o drama de José e Maria em fuga desesperada, batendo às casas em busca de abrigo, exigindo cômodos dos incomodados. Havia parteira, sim. Mas parto, àquela hora? Não e não. Para mulher que vai dar à luz em presépio esfarrapado, não há lugar nenhum, não há maternidade, não há obstetra, não há pediatra para bebê nascer de graça. Quisera, como naqueles tempos, um Natal que não fosse à fórceps, que não houvessem abortos, nem dogmas do marketing purulento, nem mesmo da liturgia vazia dos templos de mercado. Quisera reencontrar-me com o Criador dos mundos, o dono das consciências, para tributar-lhe honra, glória e poder.
Inclino a drogar-me na dependência da luz e da fumaça efêmera da noite infinita de puro prazer. Inclino-me a aceitar o Natal do vinho, do champanhe, do peru, do leitão pururucado, do carneiro eucarístico, da picanha mal passada, dos beijos e abraços. É a antecipação do banquete que começa e não acaba de terminar na orgia do céu. Natal é o aperitivo de que tarde se começa amar. Mistério profundamente humano e divino, em que Deus se transforma em gente, o Natal é um ato de amor em que se ama tanto, amando, até ficar um. Assim, nasci e alcei vôo. De um presépio.
JOSÉ FIORI é jornalista em Curitiba.


