Globalizados e civilizados
O mundo dos altos negócios admite quase tudo fraudes contábeis, obras superfaturadas, balanços maquiados. Mas se há uma coisa mal vista nesse universo, é sinceridade. Há poucas semanas, em um rompante de franqueza, o presidente do Uruguai, Jorge Batlle, afirmou que ''os governantes argentinos são um bando de ladrões''.
Não demorou uma semana para Batlle se desculpar ao vivo e em cores, com direito a choro de arrependimento, em rede de TV. O uruguaio fez um 'mea culpa' ao presidente Eduardo Duhalde e ao povo argentino que, em sua grande maioria, segundo pesquisa feita no país, concordava em gênero, número e grau com o que ele havia dito.
Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos EUA, descuidou da diplomacia no domingo passado e tascou: ''O FMI tem que tomar cuidado para que o dinheiro que empresta ao Brasil, Argentina e Uruguai não vá parar em alguma conta na Suíça''. Resultado: abriu uma discussão diplomática e um mal-estar continentais.
O episódio só não teve consequências maiores porque, além de globalizadas, as autoridades estão muito civilizadas. O ministro Pedro Malan, por exemplo, que em última instância é quem decide para onde vai o dinheiro emprestado pelo Fundo, poderia se ofender. Que nada. Ele interpretou de modo muito particular a declaração-bomba: ''O que entendi é que estes países, segundo O'Neill, precisam adotar políticas confiáveis, que, para ele, já existem''. Ah, bom.
Quem também não levou a mal a declaração do norte-americano que, a propósito, inicia um giro pelo Brasil, Argentina e Uruguai neste domingo foi o chefe de gabinete dos ministros na Argentina, Alfredo Atanasof. Longe de se ofender com a estocada, ele foi logo avisando que os argentinos nem pensavam em exigir retratação do governo norte-americano pelas palavras de O'Neill, como o governo brasileiro diz que fez.
''O secretário do Tesouro não foi agressivo. Só está falando isso pelas coisas que lê nos jornais. Mas pode ficar tranquilo porque o dinheiro do Fundo não vai parar em nenhuma conta na Suíça'', afirmou, sem vestígio de mágoa.
Ruth Meira





