Difícil dizer quanto tempo vai durar essa guerra do mundo moderno, a guerra dos capitais globalizados. Alvos desguarnecidos dela, o Brasil e seus governantes devem ter aprendido a lição: a dependência irrestrita de capitais externos é perigosa, muito perigosa.
Os últimos acontecimentos na economia mundial e nacional provaram que a globalização deve ser um caminho de mão dupla. Por isso, devemos prestigiar e estimular a formação de grandes empresas de capital verde-amarelo transnacionais, que, numa case como essa, funcionariam como tentáculos pelo mundo afora, para captar negócios, atrair recursos e integrar interesses.
Exceto por alguns ajustes em certos setores, a economia brasileira até que ia bem, muito bem. Empresas se reestruturando, novas fábricas se instalando, estatais sendo privatizadas, a educação começando a engrenar. Faltava, é claro, o acerto nas contas públicas e o controle dos déficits fiscal e comercial. Mas o governo se mostrava atento, as reformas vinham sendo costuradas e o presidente Fernando Henrique parecia confiante no seu taco para aprová-las na hora ‘‘H’’ provavelmente depois da sua reeleição.
O mundo, porém, estava bem mais complicado. Desastres longe daqui repercutiam com vigor inesperado, muitíssimo mais forte do que as autoridades brasileiras podiam esperar. A reação seguiu o que recomendam os manuais: elevar as taxas de juro e pacote de medidas para garantir mais financiadores, multiplicando divisas e assegurando o crescimento. Para apagar o incêndio só mesmo poupando, apertando o cinto, diminuindo as despesas, tirando a gordura e, junto, um pouco de carne. O pacote do governo atirou para todos os lados.
Diante disso, só resta reforçar dois pontos. Temos um notável estoque de bens representados pelas ações das empresas estatais e pelas concessões de serviços públicos ainda disponíveis. Um fundo com esses ativos chegaria próximo a US$ 200 bilhões que securitizados, serviriam de moeda de alto valor agregado para atrair investidoras ou reduzir e até liquidar a dívida do setor público federal. E temos também uma estrutura de consumidores invejável, para a qual o mundo todo está atento.
Mas ainda há tempo! O BNDES e a CVM, juntos com o Banco Central, tendo o Cade como aliado, podem estimular fusões de companhias congêneres que queiram se instalar em outros países. O Itamaraty pode integrar nesse projeto seus experientes diplomatas, para dar orientação e apoio a operações made in Brazil. Empresas de serviços dos mais diferentes campos formariam alianças na consolidação desse processo de fortalecimento dos negócios mundiais. Os principais bancos locais partiriam para operações no exterior. Tudo coordenado e integrado.
A mão-de-obra do brasileiro expatriado é farta. Nada dará mais satisfação a um deles do que trabalhar numa multinacional verde-amarela. Enfim, faríamos como qualquer empresa transnacional. Em primeiro lugar os nossos interesses; depois os deles.
Teríamos, é claro, que dar vida às câmaras de comércio brasileiras e nosso presidente se espelharia em Bill Clinton, que declara sem constrangimentos: amigos, amigos, mas, primeiro, vamos tratar dos interesses empresariais norte-americanos. No que ele faz muito bem!
Imaginem como seria bom recebermos dividendos de empresas nossas na Arábia Saudita, Rússia, Colômbia, China, África do Sul, cruzar o mundo com marcas nacionais. Estaríamos internamente mais seguros e, lá fora, nossos corações se sentiriam mais brasileiros.
- ANTONINHO MARMO TREVISAN é presidente da Trevisan Auditores e Consultores

mockup