Tudo normal. A globalização já chegou ao setor dos ‘‘flanelinhas’’. Em Paris, nos grandes boulevards, a atividade caminha solta e desabrida, talvez até com um pouco mais de competitividade do que aqui. As brigas entre os que oferecem os serviços da ‘‘flanelagem’’ e os motoristas pegos de surpresa são memoráveis, nas quais valem chutes nos pára-lamas e o desfilar de toda a lista de impropérios que só um bom parisiense sabe enumerar. A água usada para lavar o vidro dos automóveis parece ser do mesmo fornecedor brasileiro - é imunda.
Mas existem mais coisas em comum e fraternais entre a França e o Brasil. Uma delas é a falta de rumos da oposição. Lá é a direita, aqui é a esquerda, mas as duas estão desestabilizadas; soltinhas, soltinhas sem ponto de apoio para iniciar uma caminhada nova depois das derrotas e para tornarem-se uma alternativa de poder.
Aqui os quatro principais partidos de oposição se reúnem e prometem para os próximos dias o lançamento de uma plataforma de governo a ser seguida por um eventual candidato comum que ainda não foi escolhido, ainda não foi descoberto. Na França, os partidos de direita fazem reuniões para tentar achar uma saída, para colocar em discussão idéias liberais ‘‘populares’’. Para acabar com a desconfiança e fazer oposição ‘‘sem complexos’’ diante da nova maioria socialista.
O que será que está acontecendo? Será que os desafios da democracia de hoje não permitem, não dão mais espaço, para um debate entre a situação e a oposição durante o período de duração de um determinado tipo de governo? Será que quem ganha agora tem de levar tudo?
Talvez seja porque a cada dia que passa as diferenças fiquem cada vez mais só nos detalhes. Lionel Jospin, o vitorioso primeiro-ministro socialista, anunciou o seu orçamento para o próximo ano no final de setembro. Foi acusado de prejudicar a classe média, de aumentar impostos e de iniciar um caminho para diminuir a previdência social.
Jospin teve de ir pela segunda vez à televisão, desde que assumiu, para defender o orçamento. Para dizer aos franceses que ‘‘no conjunto’’ as medidas são vantajosas para a classe média e que a sua obrigação era explicar a realidade, tomar medidas de interesse geral em busca do crescimento e da diminuição do desemprego. Jospin não conseguiu convencer os críticos que continuaram afirmando que o orçamento francês do ano que vem vai diminuir o poder de compra da classe média, a grande eleitora do Partido Socialista.
Mas Jospin bem que avisou. Na primeira vez que foi à televisão, no início de julho, afirmou que era necessário adotar o conceito de um ‘‘realismo de esquerda’’. Pediu também que os franceses não se comportassem como ‘‘notários’’, que não se fiassem ao pé da letra nas promessas de campanha.
Fernando Henrique não se deu a esse luxo. Os famosos cinco dedos, que eram os pontos básicos da campanha, tiveram que ser esquecidos sem explicações. Interessante: Jospin, na sua performance televisiva, afirmou que a classe média era ele. Fernando Henrique, na badalada entrevista à revista Veja, disse que ‘‘a esquerda sou eu’’.
Outra coincidência: o tempo no começo do outono francês era o mesmo do começo da primavera brasileira, com temperaturas até parecidas. Devem ser coisas do ‘‘El Ni¤o’’.

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