Globalização e soberania
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de abril de 1997
Hélio Duque 
A discussão econômica do Brasil Real está sem rumo. Para o oficialismo, o binômio é estabilidade ou caos. Para a oposição a opção chamada de neoliberal é o próprio caos. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Os desafios são bem maiores.
Represar a mundialização econômica é missão impossível. A globalização é um fato irreversível, mas nem por isso as economias não participantes do G-7 (grupo das 7 nações mais ricas) devem abdicar do inquestionável valor do Estado nacional traçar rumos, estratégias e modelos de crescimento que melhor se adequem aos interesses da sua população.
O espaço geográfico do Estado-nação, não há globalização capaz de alterar. Portanto, afirmar que o Estado nacional morreu é conversa para boi sonso dormir. É seguir as pegadas de um aventureiro vulgar ( com as chancelas de funcionário do Departamento de Estado) como o nipo-americano Frances Fukuyama que chegou a proclamar o fim da história após a queda do Muro de Berlim.
Não é por aí. O protecionismo do chamado bloco do primeiro mundo contra as economias periféricas é um fato objetivo. Nos Estados Unidos, o suco de laranja brasileiro é taxado em 435 dólares por tonelada para entrar no seu mercado. Na Europa, a agricultura brasileira é penosamente gravada perdendo competitividade. São exemplos das presenças afirmativas dos Estados-nacionais primeiro mundistas.
Em verdade, o novo cenário do mundo exige um novo padrão de Estado. E nisso, o Brasil, tanto pela parte governamental, como pela federação das oposições, não conseguiu construir um diálogo que seja compreensível para a cidadania. Se as opções liberalizantes discutem receitas sobre como estabilizar a econômia, ninguém em sã consciência pode ser contra, porque a queda da inflação gera uma melhoria relativa na qualidade de vida. Assim como uma maior inserção na economia internacional é fundamental para a atualização tecnológica e aumento de produtividade.
Mas isso só não basta numa economia como a brasileira, diante da magnitude dos problemas econômicos e sociais. O que fazer? A opção verdadeiramente social-democrata, nesse novo tempo, é aprofundar reformas estruturais, defendendo um Estado forte com capacidade de intervir no plano econômico-social de maneira eficiente. Para isso, o ajuste fiscal é imprescindível levando à recuperação da sua capacidade de poupança, limitando o espaço das corporações públicas e privadas, priorizando os setores sociais e aplicando maciços investimentos em infra-estrutura.
Redimensionar a função desse Estado moderno, obviamente com a redução das atividades meios estatais, priorizando a educação, a saúde e a segurança. Nas estruturas estatais estratégicas introduzir o controle público, transformando-as efetivamente em estruturas públicas.
Essa nova roupagem do Estado é que garantirá um nível de crescimento sustentador de projetos econômicos e sociais que reduza gradualmente os níveis de desemprego e de concentração de renda que tanto atormentam a família brasileira. E isso não é utopia, é plenamente executável. Mas para isso é preciso que o governo abandone as farisaicas provocações de neobobismo e convide os setores lúcidos da oposição para um diálogo propositivo para o bem do Brasil. Isso não significa adesão, ninguém perderá o seu perfil, nem violentará consciências.
- HÉLIO DUQUE é economista e ex-deputado federal.


