Globalização e mediocrização - Regina Kracik Teixeira
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de julho de 1998
Regina Kracik Teixeira 
Constatação óbvia, mas não desnecessária enquanto o efeito do que é constatado afigurar-se inevitável, é a de que, à força de muito uso, as palavras perdem o gume, banalizam-se, tornam-se clichês, lugares-comuns, usados indiscriminadamente e irrefletidamente, em proporção direta ao esvaziamento de seu sentido.
É o caso da palavra globalização - e não apenas da palavra, mas da própria idéia da coisa, que, de tão vulgarizada, parece constituir um valor em si (assim como acontece com a idéia de modernidade à qual ela está associada) e, portanto, deixa de ser verdadeiramente questionada.
Torna-se discurso oco (como, aliás, é a vocação de todo discurso ideológico) e pauta da moda para a qual se convocam deste entrepreneurs chineses com jeitão de yuppie até os mais reles e debilóides especialistas. E todos eles lhe dizem: Você não pode deter a globalização. Pior do que isso: ao que parece, também não se pode deter a burrice entusiasmada da qual a criação e a assunção irrefletidas de um dogma constituem sintomas.
Globalização nem é uma idéia nova: os grandes reis e imperadores da antiguidade que buscavam expandir os seus domínios, os grandes navegadores - pouco importando se eram fenícios, vikings, Marco Polo, Cristóvão Colombo ou Cabral - e igualmente passou pela cabeça de Hitler, dos fabricantes de jeans e Coca-Cola, dos proprietários das redes mundiais de fast food, assim como de todos os cientistas malucos das histórias em quadrinhos e dos filmes ruins de ficção científica.
Dirão talvez alguns leitores que globalização não é bem isso. De minha parte, direi apenas que é preciso tomar cuidado com os novos rótulos que cada época inventa para dissimular a sempre presente e inextirpável ambição.
Certamente, da maneira como julgamos entendê-la hoje em dia, a globalização da economia seria inviável sem uma globalização anterior: a dos meios de comunicação. E sobre ela, já nos anos 60, discorria o professor canadense Marshall McLuhan, para quem o desenvolvimento - e a consequente instantaneização - da comunicação transformaria o mundo numa aldeia global. McLuhan - a quem a mídia da época rotulou como profeta da era eletrônica e papa da comunicação (a mídia adorava inventar rótulos) - morreu em 81 e deslizou para o limbo dos esquecidos.
A idéia de aldeia global, no entanto, continuou prosperando e tornou-se realidade consumada. Suprema ironia: estamos agora conectados ao mundo inteiro e... as pessoas se sentem cada vez mais sós. Por quê?
Não é preciso entender de economia para saber que a globalização do mercado não é uma feira universal de oportunidades democráticas acessível, via Internet, ao bico do microempresário do Paquistão ou do fabricante de rapaduras dos interior da Paraíba.
E, no entanto, é mais ou menos essa a impressão que tem o cidadão comum, o homem do dia-a-dia, a quem as escolas e os cursinhos de informática prometem preparar os filhos para o mundo globalizado do Terceiro Milênio.
Ele próprio - esse cidadão - já se sente meio globalizado, pois desfruta, a preço módico, dos bens culturais e materiais que a homogeinização do gosto e das mentalidades promovida pela globalização, tornou tão acessíveis quanto descartáveis.
E com isso, uma coisa é certa: jamais se viu um rebanho tão moderno, internacionalizado e tão medíocre. As megaempresas e superestruturas globalizadas às quais interessa esse público consumidor universal, e nem um pouco valores menos objetivos do que a eficiência e o lucro, ficam canibalmente agradecidas.
- REGINA KRACIK TEIXEIRA é jornalista e diretora da Folha do Paraná em Curitiba


