Globalização e horror
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de setembro de 2001
Ricardo Costa de Oliveira 
O ataque realizado contra os Estados Unidos no dia 11 de setembro de 2001 deixou o planeta estupefato. Nada é mais pós-moderno do que o espetáculo da mídia mostrando cenas ao vivo muito mais realistas e impactantes do que qualquer ficção virtual cibernética. O real foi mais trágico e espetacular do que um wargame informático.
O caos e o pânico no centro do ''império'' impressionaram a toda a humanidade na sua extensão catastrófica. Os principais símbolos do poderio estadunidense foram espetacularmente atingidos. Tanto as estruturas capitalistas do World Trade Center quanto o aparelho estatal-defensivo do Pentágono foram detonados.
O que levou os Estados Unidos a serem atingidos de maneira tão cruel e bárbara está relacionado com os aspectos negativos da política exterior dessa potência ao longo de décadas de arrogância e de intervenções igualmente cruéis e bárbaras.
Não só as nações vizinhas da América Latina e do Caribe conheceram a política do Big Stick e as rapinagens territoriais conduzidas pelos Estados Unidos contra o México e as Repúblicas do Caribe e da América Central em uma série de operações hostis, das quais também se inclui o tradicional apoio às ditaduras e aos regimes tirânicos nessa parte do mundo. Também as guerras como a do Vietnã caracterizaram intervenções bélicas impopulares interna e externamente.
A face negativa dos Estados Unidos configurou um padrão que piorou com a eleição de George W. Bush, eleito com menos votos do que o outro candidato, Gore, em um impasse de várias semanas que desafiou o sistema eleitoral e o campo democrático estadunidense.
O enredo problemático pode ser visto nos atuais comportamentos da política externa dos EUA. As recentes políticas de apoio incondicional a Israel, o desprezo pelo Protocolo de Kyoto, que ampliaria os cuidados em relação ao meio ambiente, o abandono da Conferência sobre Racismo em Durban, na África do Sul, a retomada do projeto das Guerras nas Estrelas com ameaças de uma retomada da corrida armamentista, o aumento das tensões com a China e com o Iraque são todos componentes espinhosos dos conflitos mundiais.
O fato é que estamos em uma globalização que só aumenta as desigualdades sociais entre os ricos e os pobres nacional e internacionalmente, uma globalização que produz os desesperados que ambientam e formam as legiões de imigrantes e despossuídos que nada mais têm a perder e que também engendra os loucos suicidas pelo mundo afora.
A insanidade e a irresponsabilidade dos terroristas resultou em um grande número de vítimas e na demonstração da fragilidade militar e defensiva dos Estados Unidos. O centro do sistema não está ileso e a salvo dos dramas da globalização e dos conflitos mundiais. O núcleo financeiro e militar do sistema global foi atingido com estúpida dureza. Uma das maiores preocupações será o conjunto das possíveis consequências desses atos.
Como reagirá a liderança estadunidense? Ao contrário de ataques anteriores na sua história, como o Álamo e Pearl Harbour, em que havia um inimigo visível, objetivo e mais fraco em recursos, o ato de ontem é muito mais complexo porque envolve uma possibilidade de adversários muito mais astutos, ocultos e encobertos na covardia do terrorismo e que também enfrentam há anos a covardia tecnológica da política exterior dos Estados Unidos em muitas das suas intervenções.
Os Estados Unidos possuem uma dimensão progressista que está presente desde a sua independência em 1776 e que foi reafirmada com Lincoln na Guerra Civil de 1861. Esta face democrática, liberal e generosa dos EUA não deve jamais ser calada e esquecida pelo seu lado imperialista, alienado, agressivo e hostil tantas vezes revelado. Essa contradição novamente estará sendo discutida na implementação das retaliações e nos desdobramentos da sua política exterior.
O horror da globalização também chegou no núcleo duro do centro do sistema. A globalização é inevitável, o terror é que deve ser evitado em qualquer das suas manifestações. Se o mundo islâmico inventou o conceito de jihad, o mundo ocidental-cristão inventou o conceito de cruzada. A longa tradição ocidental de uma política que defenda a liberdade, a tolerância, os direitos humanos, políticos e sociais precisa ser reinventada como contraponto aos horrores da globalização e do terrorismo mundial que parte de várias fontes destrutivas.
- RICARDO COSTA DE OLIVEIRA é sociólogo, doutor em Ciências Sociais e professor universitário em Curitiba


