Hoje em dia, nem o canto mais inóspito do planeta está imune às coisas do mundo. Neste momento em que estamos à beira da primeira pandemia (epidemia em proporção planetária) do século XXI, provocada por uma mutação do vírus influenza - a chamada gripe suína-, o médico infectologista Joaquim Celso Andrade Guimarães, de Londrina, lança o alerta: as doenças provocadas por vírus, bactérias e outros micro-organismos ''super-resistentes'' tendem a ser cada vez mais comuns e, pior, mais graves e mais abrangentes por causa do estilo de vida atual. A globalização das doenças, completa o especialista, poderá ser uma das características mais marcantes do nosso tempo.
Prova de que as distâncias se encurtaram a ponto de aproximar ao mínimo Londrina do México é que, conforme a FOLHA apurou na última semana, um executivo mexicano circulou pelo aeroporto local e permaneceu alguns dias na região sem ser monitorado.
Guimarães ressalta que situações como esta relatada a ele pela reportagem não devem causar pânico porque até o momento não há evidências de que o vírus da gripe suína tenha chegado ao país, apenas suspeitas. Por outro lado, admite que nem o Brasil nem qualquer outro país do mundo está preparado para enfrentar uma pandemia com altas taxas de mortalidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que a gripe suína irá progredir para uma pandemia. Como o senhor avalia esta situação?
As epidemias e as pandemias já são previstas pela OMS porque já tivemos exemplos no passado, como a gripe espanhola em 1918, a asiática em 1958 e, em 1969, a de Honk Kong. O próprio Ministério da Saúde por causa da gripe aviária, tem plano de contenção contra o Influenza A - o vírus da gripe e o mesmo da gripe suína - desde 2003.
A tendência é que essas situações ocorram com mais frequência?
Penso que a tendência é piorar. Nos congressos atuais, existem mesas sobre as doenças reemergentes como febre amarela, cólera, malária, dengue, doença de Chagas, e também sobre novas doenças que estão surgindo. Acredito que isso ocorre em função do nosso estilo de vida: facilidade de trânsito, certa promiscuidade, ecologia mudando, a adaptação dos micro-organismos, uso abusivo de antibióticos pelas pessoas - e em animais -, que levam à resistência das bactérias, por exemplo.
Por causa da dinâmica do mundo atual, vírus, bactérias e outros micro-organismos também se globalizaram?
Os micro-organismos e as doenças se globalizaram. No Brasil por exemplo, até um tempo atrás tínhamos febre amarela basicamente na região Amazônica. Hoje, temos casos até no Rio Grande do Sul. No próprio Paraná há suspeitas em Maringá e no Norte Pioneiro, onde morreram muitos macacos.
Essa globalização pode gerar micro-organismos ainda mais resistentes?
Lógico, porque é possível ter características de outros países que podem ser importadas, vamos dizer assim, pelo nosso país e gerar um caos. A preocupação atual da saúde pública é justamente que esta epidemia vire uma pandemia, que é mais desastrosa e causa mais mortes principalmente nos grupos mais vulneráveis como idosos, aqueles com alguma patologia de base como diabetes e Aids, e os bebês. No caso da gripe espanhola, por exemplo, estima-se que morreram entre 20 e 40 milhões de pessoas em todo o mundo.
Houve um surto recente de bactéria multirresistente (''Klebsiella spp'') no Hospital Universitário em Londrina e há também as micobactérias, que se alojam em instrumentos cirúrgicos e causam problemas graves. Podemos dizer que o ambiente hospitalar é de alto risco?
Não que seja de alto risco, mas é onde se seleciona as floras. As bactérias se tornam mais resistentes e são mais fáceis de serem encontradas nestes ambientes onde se usam mais antibióticos. A pneumonia que se pega fora do ambiente hospitalar, pelo menos em teoria, pode ser menos grave do que aquela adquirida dentro do hospital.
Considerando as desigualdades regionais, o sistema de saúde do Brasil está preparado para uma pandemia?
Uma pandemia seria o caos e acho que nem o Brasil nem qualquer outro país do mundo teria condições de garantir atendimento a todos. Nessa situação, estima-se que só no Brasil seriam por volta de 60 milhões de pessoas doentes. Dessas, entre 10% e 15% poderiam precisar de internação, o que dá cerca de 5 milhões de pessoas. E pior, a mortalidade desse vírus gira em torno de 5% a 6%. O que preocupa muito é a característica mutante do vírus, mas temos que reconhecer que o Governo brasileiro está atento, tem protocolo de atuação e as pessoas não precisam ficar apavoradas.
É possível prevenir? A máscara e os medicamentos funcionam?
Em caso de algum suspeito de estar com o vírus chegar ao Brasil, o processo é isolar esse caso e monitorar todos que tiveram contato com ele para não deixar a situação sair do controle. Existem também as vacinas mas, como os vírus mutam de ano a ano, as que tomamos agora é do Influenza do ano passado. Mesmo assim, os idosos que são vacinados todos os anos acabam criando uma resistência parcial ao vírus e pode ser que tenham uma reação muito mais leve à gripe suína. Sem vacina, a prevenção paliativa é não ficar em locais fechados e com aglomerações e não viajar para o México e outros países com casos confirmados. A máscara pode ajudar mas ainda não é o caso de todo mundo sair usando.

mockup