Há alguns anos, visitando o Japão, chamou-nos a atenção o fato de o arroz estar na categoria de segurança alimentar. Não se falava no modismo globalização. O fato veio à nossa lembrança, há alguns dias, ao ler um comentário semanal que o empresário Antônio Ermírio de Moraes publica na imprensa brasileira.
No seu texto, Ermírio de Moraes, numa análise de conjuntura econômica internacional diante da globalização, chama a atenção para o mesmo fato, diante de uma nova roupagem. O arroz que o Japão atualmente produz tem custo cinco vezes maior que o produzido nos vizinhos Tailândia, Birmânia e Vietnã. Nem por isso o Japão deixa de subsidiar a produção nacional de arroz. Além de gerar milhares de empregos, impede o êxodo para as grandes cidades, inchando-as tornando-as explosivas pelo agravamento do problema social. Entendem os planejadores japoneses que o subsídio é mais barato do que extinguir a produção nacional do arroz.
Forçado pelos acordos internacionais a importar arroz dos seus vizinhos, no ano passado, o Japão comprou da Tailândia 400 mil toneladas de arroz. E o que fez? Distribuiu caritativamente para os países amigos que tem problema crônico de fome.
É a milenar sabedoria oriental ensinando aos tecnoburocratas ocidentais. Ainda agora, no Brasil, veja o que fizeram com a produção nacional de trigo: por um momento os agricultores do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, diante da medida provisória 1.569 que limitava as importações financiadas, tiveram a doce ilusão de que plantar trigo voltaria a ser um bom negócio. A região sul, responsável por mais de 90 por cento da produção tritícola brasileira, vibrou e frustou-se.
O que ocorreu? Simplesmente os tecnoburocratas oficiais, alteraram a medida provisória, por 120 dias, diante das pressões da Argentina. E o escudo da pressão foi o Mercosul. Em nome da globalização. De acordo com o Instituto de Economia Agrícola de São Paulo, a redução da área de trigo será de 81 por cento no Estado. Já no Paraná, líder entre os produtores nacionais, o Departamento de Economia Rural estima em 25 por cento a redução da área plantada.
Ressalte-se que, de acordo com a Faculdade de Agronomia de Botucatu, os índices de produtividade são, respectivamente, de 2.000 quilos por hectare na Argentina e de 1.600 quilos no Brasil. Longe de se comparar ao exemplo do arroz japonês.
Mesmo em tempo de globalização, cabe ao Estado o dever de administrar os seus efeitos positivos e negativos. Foi o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso quem recentemente disse: ‘‘É preciso que haja um aparelho de governo e uma capacidade política ativa para que possamos nos beneficiar ao máximo dos aspectos positivos e restringir aqueles que são menos positivos ou podem vir a ser daninhos para o País’’. Pelo que se pode constatar no caso do trigo nacional, os responsáveis pela área precisam ouvir o conselho do chefe. Ou não?
- HÉLIO DUQUE é economista e presidente do diretório regional do PSDB

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