Gladiador, hoje e sempre
Gladiador, hoje e sempre
Maria Lucia Victor Barbosa
Achei o filme Gladiador magnífico, independente de uma crítica que li e que revelava mais despeito e dor-de-cotovelo com forte acento ideológico do tipo antiamericano do que propriamente uma análise da técnica cinematográfica. De fato, há uma certa semelhança em termos de essência, entre o grandioso Império Romano e os Estados Unidos como atual superpotência, e isso pode ter incomodado o crítico cujo nome, perdoem-me os leitores, não consigo lembrar.
De qualquer modo, concluí que possivelmente ele deve ser defensor do medonho cinema nacional, que sempre oscilou entre a mediocridade e o baixo nível, e adepto daquela reconfortante crendice segundo a qual nós somos pobres porque eles (os Estados Unidos) são ricos. Uma baboseira, é claro, mas que afirmada com ares de seriedade do alto das cátedras universitárias, e difundida por certo bestunto coletivo existente nas academias, impõe-se com dogma difícil de ser expurgado.
Críticos à parte, Gladiador me agradou e muito. Encheu meus olhos de beleza, contentou meu espírito com grandeza, deliciou meu intelecto e meus sentidos com interpretações, roteiro, efeitos especiais, figurinos, e tudo mais que encanta os olhos e a mente. Diante de mim, na sala escura, ergueu-se a Roma dos Césares que não existe mais. Não de forma literalmente histórica, mas suficientemente convincente para renascer majestosa entre a fantasia e a realidade pela mágica do cinema. E assim, mais uma vez, integrei-me na tela como se o passado sorvesse minha vida e me atirasse na arena do Coliseu ou me colocasse diante dos senadores romanos.
Afinal, não reside nisto a fascinação exercida pelo cinema? Um bom filme se apropria da imaginação através do irreal e consegue banir, nem que for por duas horas, a mediocridade das existências saturadas de cotidiano. Diante da tela todo mundo pode se transformar em herói, rei, aventureiro ou caubói. Não há limites para a imaginação. E quantas vezes na penumbra, toda olhos e ouvidos, a platéia ri, chora, torce, ama, odeia, leva sustos incríveis, tocada pelos sentimentos, pulsando em ritmo de emoção, vivendo o que não é de verdade como se fosse.
Em Gladiador passei pela Roma Antiga e ouvi a conversa de dois senadores. Um deles disse: Commodus reúne a admiração e o temor do povo. E o outro respondeu: Isso é extremamente perigoso e o torna imbatível. Em seguida acrescentou: Roma não é a pedra fria do Senado; Roma é a areia quente do Coliseu. Roma é a plebe.
Essas frases deram o tom do filme. Apenas, quem sabe, um espetáculo de violência para uns, mas para mim uma bela análise daquilo que Aristóteles chamou de política, e que impregna inexoravelmente a vida humana desde que mundo é mundo.
Roma foi a plebe. O mundo foi e continua sendo a plebe. O Brasil é a plebe. E para esta sempre foi feita, através de variadas maneiras, a política espetáculo das areias quentes. Mesmo porque, quantos se importam com a racionalidade do mármore frio? Muito poucos, pois a política se compõe basicamente de aposta, de jogo, de emoção, o que continua a existir nas democracias modernas, sendo visível através do voto.
Afinal, avaliações mais profundas não são comuns. Comprove-se isto perguntando-se: o que interessa mais num candidato? Seu sorriso persuasivo ou seu programa de governo? Suas promessas impossíveis ou suas péssimas ações? Seus comportamentos imorais, camuflados pela demagogia, ou sua ética? A plebe responde modernamente a essas indagações com o voto, e raramente o resultado do voto é satisfatório.
Uma das explicações para este incontestável fato está, para variar, em Nicolau Maquiavel. Em O Príncipe, ele escreveu: Os homens são tão pouco argutos, e se inclinam de tal modo às necessidades imediatas, que quem quiser enganá-los encontrará sempre quem se deixe enganar.
A plebe no Coliseu saudava Commodus, que assumiu o poder de forma violenta e passou para trás o heróico general Maximus, sendo que a demagogia do César, e sua necessidade doentia de obter o favor da plebe, o fez restaurar as lutas sangrentas dos gladiadores chamadas eufemisticamente de jogos. Com isso, Commodus afagava sua vaidade incomensurável através da aclamação das multidões em delírio no Coliseu. Ele sentia o prazer afrodisíaco do poder, e como um deus decidia sobre a vida e a morte dos gladiadores, que antes de se massacrarem o saudavam: Ave, César, os que vão morrer te saúdam.
Quanto a mim, vi nas arquibancadas a plebe aplaudindo furiosamente os vencedores. Ai do derrotado que jazia ensanguentado nas areias quentes do Coliseu. Imediatamente outro ídolo era saudado pelas platéias em transe, para rapidamente cair e ser por sua vez substituído. E note-se que hoje mudaram os jogos, mas não as atitudes e comportamentos da plebe.
Salva-se na mixórdia humana a excepcional figura de Maximus. Grande general, gladiador invencível, ele se notabiliza por suas raras virtudes: lealdade, coragem, honestidade e competência. Algo quase impossível de existir simultaneamente num homem, levando-se em conta o teor da humanidade em todas as épocas. E são essas virtudes que fazem de Maximus o herói.
Nos tempos que correm, de valores duvidosos, onde se confunde talvez de forma cínica e proposital, presunção com auto-estima, ignorância com saber arrogante, direito de protestar com violência, democracia com baderna, liberdade com liberalidade, Maximus, em sua grandeza, funciona como uma tentativa de resgatar o gênero humano. Ao mesmo tempo, incute a esperança de que possa haver alguém como ele. E quando ao final vence, simboliza a vitória do bem contra o mal, potências que em eterna luta sempre estiveram subjacentes como forças antagônicas fundamentais nas religiões e na filosofia.
Maximus personifica o triunfo sobre a vaidade, a mediocridade, a hipocrisia, a arrogância, a ignorância e outros atributos tão humanos. Por tudo isso, adorei o filme. Ele me ajudou a sonhar.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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