Gigolôs da democracia - Marcos Cesar Gouvea
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quinta-feira, 24 de setembro de 1998
Marcos Cesar Gouvea 
Primeiro o governo tucano-pefelista negociou os votos necessários para aprovar a reeleição. Comprou o Legislativo. E mais, sem necessidade de desincompatibilização. Agora tudo culmina com uma inacreditável campanha eleitoral de Fernando Henrique Cardoso usando e abusando do seu cargo de presidente da República diante da apatia da Justiça Eleitoral.
O uso da máquina federal é escandaloso. Nunca se viu tanto ministro inaugurando obras, programas, projetos, fazendo campanha eleitoral ostensiva em atividades governamentais. Um exemplo é o economista José Serra, que está ministro da Saúde, que chega a atropelar programas na área, planejados por especialistas, para fazer tudo em dois meses. É o caso do programa de combate ao câncer uterino. Mesmo sem ter a estrutura suficiente, gerou a expectativa de fazer 5 milhões de exames Papanicolau até outubro e está criando confusão. Mas, para a campanha, vale o marketing.
O PSDB, que surgiu sério, mas há anos absorveu grande parte da escória política brasileira, vai assim se colocando em sintonia com os tradicionais partidos brasileiros, cujo princípio se resume no vale-tudo. Do PSDB, que surgiu como esperança de um partidarismo coerente, resta um Mário Covas. Governador de São Paulo, ele desagradou correligionários e principalmente o presidente Fernando Henrique Cardoso, desincompatibilizando-se do cargo para a campanha.
Sabe Mário Covas que não é honesto fazer campanha ocupando o cargo. Fazer isso é velhacaria, é safadeza. E velhaco e safado é coisa que Mário Covas não é, e não há eleição que valha fazer concessões a ponto de ser confundido com essa gente. A postura ética e moral de Mário Covas pode até custar-lhe a reeleição. Mesmo que aconteça, ele terá sido vencedor, porque realizou um governo sem ser infectado pela praga do populismo. Hoje, Covas é o único tucano com postura de estadista.
O peemedebista Antônio Britto, governador do Rio Grande do Sul, é outro que se desincompatibilizou, mostrando que nem tudo está perdido na democracia brasileira.
Demagogo-mor, o presidente Fernando Henrique Cardoso vai à TV para tentar posar de estadista, pedindo aos governadores e prefeitos que, de agora em diante, passem a ter uma postura de austeridade ao lidar com o dinheiro do contribuinte. Soa falso, assim, na véspera das eleições.
Quem vai acreditar que os prefeitos irão mudar do dia para a noite? Depois de sacramentadas as eleições para presidente, governadores e legislativas e, já no dia seguinte, são eles, os prefeitos, que inauguram mais uma farra, a da própria reeleição deles, sem desincompatibilização e absolutos nas respectivas máquinas administrativas e com o dinheiro dos seus contribuintes. O exemplo vem de cima, em cascata.
- MARCOS CESAR GOUVEA é jornalista da Folha, em Londrina


