A divisão do bolo da riqueza no Brasil é das mais desiguais do planeta. Os 10% mais ricos da população dividem quase 50% da renda nacional; os 40% mais pobres se viram com menos de 10%. Tem sido assim nas últimas décadas e piorou muito depois de 1992, como mostram estudos dos mais variados departamentos de pesquisas, entre eles o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Quem ocupa o topo da pirâmide tem medo de cair. Quem está na base, não consegue subir. Entre esses extremos, equilibra-se a outra metade dos brasileiros, balançando entre dois sentimentos: o desejo de ascender, obtendo acesso a bens e regalias que cobiça à distância, e o medo de perder o pouco que conquistou com esforço. Emprego e casa própria, especialmente.
Com uma fatia tão pequena do bolo para tantas bocas, explica-se a fome nacional. Que não é, naturalmente, um quadro verde-amarelo. É mundial. Relatório divulgado ontem pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) aponta que o planeta Brasil na dianteira, já que é um dos campeões em desigualdade não poderá cumprir o objetivo de reduzir à metade a fome no ano 2015 e, provavelmente, nem mesmo em 2030. Em 1996, a Cúpula Mundial de Alimentação firmou o compromisso de reduzir em 20 anos o número de famintos do mundo em 50%. Não vai dar.
A meta pode até ser lançada, segundo a FAO, mas com uma condição indispensável. A de que os governos assumam o compromisso de realizar fortes investimentos em agricultura. A América Latina é recordista em injustiça social, com 50% da população enquadrada na categoria 'pobres'. E o Brasil, um gigante nesse mapa da miséria.
Mesmo assim, não se vê os candidatos à presidência fazendo planos para o campo. Um ou outro acena, dependendo da platéia, com propostas quase sempre vagas para estimular a produção rural. Não apresentam projetos concretos, planos de investimentos, programas de prioridades. Urbanos, os presidenciáveis parecem pensar em carro, aço e petróleo quando falam, entusiasmados, em exportação.
Precisando alimentar uma nação de 50 milhões de indigentes, com renda familiar mensal abaixo de R$ 80, e criar divisas para depender menos do capital externo, será bom que o País leia-se, o novo presidente comece a voltar os olhos para o campo. Mesmo que seja quando sobrevoa o ''brasil rural'' entre um comício e outro.
Ruth Meira

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