Só dá ele. O Aedes aegypti virou o inimigo número 1 do Brasil. Uma picadinha dele nocauteia e manda pra cama. A cabeça explode. A febre dispara. As articulações enferrujam. Andar? De tanta dor, só requebrando. Daí o nome. Dengue lembra outro dengue. O do dengooooooso.
O mosquitinho adora gente. Sem-teto, vive buscando abrigo. As cidades são generosas. Oferecem-lhe morada. Ele só faz uma exigência. Quer água limpa e parada. No mais, topa tudo. Abriga-se nas pocinhas das bromélias. Nos pires que matam a sede das plantas. Nos vasinhos dos cemitérios.
Mas os danadinhos sentem atração irresistível pelos lugares abandonados por Deus e pelo governo. Sem água potável e sem coleta regular de lixo, as favelas são prato cheio. Os depósitos de água ficam descobertos. Garrafas, latas, plásticos, pneus, ferros velhos dão acolhida aos visitantes. Durante as chuvas, coisa boa! Dona mosquita pica a torto e a direito. Depois, descansa. Põe mil ovos. Fumacê e inseticidas podem matá-la. Mas a filharada fica protegida. No verão seguinte, Deus nos proteja!
Ninguém escapa. Deu bobeira? Dançou. O Rio tem sofrido à beça. Cercado de favelas, é o Estado que mais recebe turistas. Impossível saber se estão contaminados. A dengue engana. Ora parece gripe. Ora é assintomática. O desavisado entra. O Aedes o pica. E vai multiplicando os dengosos.
Os cariocas reagem. ONGs se mobilizam. Voluntários fazem mutirão.
Militares entraram na guerra. A tevê também. Mas a situação vai piorar, dizem os especialistas. As chuvas de março vêm aí. Com elas, a mosquitada vai deitar e picar.
E nós? Fazemos o papel do último rei mouro. Quando Granada caiu na mão dos cristãos, o monarca derreteu-se em prantos. Cruel, a mãe lhe disse:
– Chora como mulher o que não soubeste proteger como homem.
A lição vale para o Brasil. Nos anos 50 e 60, depois de dura batalha, o Aedes foi erradicado daqui. Em 1976, voltou. Ninguém lhe deu bola. Nesse meio tempo, as cidades incharam, as favelas aumentaram, o turismo cresceu. E o governo ficou sovina. Cortou verbas do saneamento básico e não faz coleta regular de lixo. Até hoje, discute se a tragédia é federal, estadual ou municipal. Repete o jogo que gerou o descontrole da violência, a crise da energia, o colapso das estradas.
Pagamos caro pela imprevidência. A falta de investimento em segurança manda pro ralo 10% do PIB. Nada menos que R$ 120 bilhões. Com a crise de energia, foram pras cucuias de R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões. A deterioração da malha viária encarece transporte e mercadorias. A dengue sobrecarrega os equipamentos de saúde. Debilita os brasileiros. Mata.
Moral da história: o Brasil precisa de gerente. Procura-se alguém que entenda de economia doméstica.
DAD SQUARISI é jornalista em Brasília

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