''Anteriormente, era lugar comum considerar que as diversas modalidades de crime, como tráfico de drogas, homicídios e latrocínios, só poderiam ter sido cometidas por adolescentes pobres. Hoje, há um fenômeno novo''. Com essa afirmação, o psicólogo Nelson Pedro-Silva, aponta para a realidade que foge à visão ''absurda'' e ''preconceituosa'' de tempos anteriores: o envolvimento de jovens ricos com o mundo do crime. Em entrevista à FOLHA, Pedro-Silva - autor do livro ''Ética, Indisciplina & Violência nas Escolas'' - traz sugestões para a mudança de comportamento.

O senhor acredita que houve, de fato, um aumento no índice de criminalidade entre jovens da classe média-alta?
Não temos dados de como esse jovem se comportava em outras décadas. O que temos hoje é uma maior exposição dos fatos. Fica difícil fazer uma comparação. Mesmo assim, a impressão que tenho é que houve aumento nos índices de criminalidade entre a classe média-alta: esses jovens estão completamente perdidos e, por conta dos fatores estruturais, acabam se envolvendo em determinadas situações.

Fatores estruturais?
Sim. São vários aspectos. Nossos jovens vivem num estado de busca por produtos, é a geração shopping center, das parafernálias pós-modernas. Temos, também, a cultura da impunidade, em que se pode transgredir qualquer Lei e se cometer qualquer infração e não sofrer nenhum tipo de penalidade. Com isso, há a repetição do ato. Outro aspecto refere-se ao hedonismo, que é a busca do prazer individual a qualquer custo: não há uma preocupação moral e ética. Há um brutal declínio dos valores. Houve uma transição nos tipos de educação. Antes, tínhamos a educação chamada ''adultocêntrica''. Agora, a educação é ''puericêntrica''. Vivemos em uma sociedade de crianças.

Os adultos não detêm mais o controle?
Exatamente. Ocorreu uma inversão a partir da década de 1970 para um tipo de sociedade centrada na criança e no jovem, ou seja, puericêntrica. Então, se antes tínhamos a figura do adulto determinando como as pessoas deveriam agir em dada sociedade (adultocêntrica), hoje o que temos são crianças e adolescentes determinando essa ação: são verdadeiros imperadores, detectados, sobremaneira, na classe média-alta e na classe alta.

A quais fatores atribui essa mudança?
O movimento de Contra-Cultura trouxe um novo modo de vida, pregado pelos hippies: a cultura da paz e amor. O problema é que as idéias foram completamente deturpadas. As pessoas compreendem esse processo como a não-colocação de limites e regras. Ao invés de se substituir todos os valores vigentes pela paz e amor, todos os valores foram trocados por nada, pois se acredita, no atual conceito, que qualquer valor pode levar o sujeito ao sofrimento, à produção da neurose. De quebra, os meios de comunicação de massa produziram três culturas, que priorizam a imagem e o belo, o ''sim'' e o ''não'' (cultura binária), em que não há o ''depende'', e o zap, onde, assim como em um controle remoto e a programação da TV, tudo é descartável.

Daí os exemplos de jovens cometendo crimes...
Vejo as ações desses jovens como um pedido de socorro, como se dissessem a plenos pulmões: ''Me dêem regras, limites, pelo amor de Deus''. Os jovens estão pedindo a palavra ''não''. Os pais precisam voltar a educar seus filhos.

E como reeducar esses filhos?
Os pais não podem sucumbir diante das pressões e têm de ser corajosos para agir de forma justa, solidária e honesta. Educar não significa bater. É preciso lançar mão do bom senso. A escola, outro agente importante, vive se queixando que os pais não estão educando os filhos. Está errada. Cabe à escola exercer o papel contrário ao dos pais, que muitas vezes não impõem limites e regras.

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