Georreferenciamento e qualidade de ensino
A denominada lei do georreferenciamento tem gerado protestos, muitos manifestados na seção de opinião dos leitores deste Jornal. Essa norma da Secretaria da Educação estabelece que os escolares sejam matriculados nas escolas mais próximas de suas residências. Uma das alegações dos que reclamam é que as escolas públicas centrais têm melhor padrão de ensino que as dos bairros; outra, que os filhos vão criando amizades que, pela separação, se desfazem. Em princípio a fórmula da Secretaria é boa, e tem o objetivo de beneficiar os estudantes, evitando longos percursos para ir à escola. Em São Paulo, no passado, tentou-se fazer isso com relação aos trabalhadores e as empresas, como o fim de criar-se uma forma legal de permitir, sem ônus para ninguém, o intercâmbio de empregados entre fábricas e serviços similares. Desse modo, até onde possível face à diversidade das qualificações profissionais, as empresas absorveriam os trabalhadores da vizinhança que trabalhavam longe, e assim no sentido inverso, num sistema de permuta. O objetivo era diminuir a superlotação dos ônibus e metrôs, o engarrafamento do trânsito de automóveis e veículos de operários e outros serviçais, dessa forma também poupando horas perdidas com o transporte. Por razões diversas a idéia não vingou, mas contribuiu para a adoção do modelo em grande parte das admissões novas. No caso do georreferenciamento escolar, o argumento de que algumas escolas públicas menores têm pior ensino que as maiores remete para a mesma Secretaria e exige dela que responda porque os padrões são diferentes se a pedagogia é uma só e os professores recebem idêntica orientação curricular. Isto corrigido, um dos impasses estará removido. A questão da quebra de anos de amizade que a separação gera - outro argumento dos contrariados - é menos relevante, porque o que se rompe será recuperado na escola nova como novos amigos. Um problema a observar é este da diferença de qualidade educacional entre um estabelecimento e outro e se há vagas suficientes e instrumentação para ministrar os mesmos ensinamentos a todos. Sempre existirão as famílias que desejam para seus filhos as escolas mais sofisticadas - aí incluídas as particulares - mas tratando-se de escolas públicas tais diferenças não devem existir entre elas próprias. A proposta do georreferenciamento não é má e facilita muitas coisas, mas é preciso atentar para essas denúncias. A classe pobre aplaude a idéia, mas quem pode transportar os filhos para distâncias maiores, com seus próprios veículos ou pagando locomoção em vans, está reagindo. É um direito, se o que pesa é a qualidade do ensino. E se é este o problema, o Estado precisa debruçar-se sobre ele. Porque, por ser periférico, o ensino não precisa ser pior.





