Geografia política
Há uma bifurcação valorativa que estabelece a ignorância mundana na mais fascinante das virtudes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de março de 2026
Há uma bifurcação valorativa que estabelece a ignorância mundana na mais fascinante das virtudes
João Gomes Filho 

Passam-se os anos e eu já não lembro mais de muita coisa – isso é bom e, às vezes, não tão bom. Todavia, talvez este deslembrar ocasional componha o epitáfio da geografia política de nossos dias, onde a ignorância avança sobre a história, desmerecendo conquistas civilizatórias na servidão de ódio que as mentiras neoliberais teimam em espraiar pela vida.
Sim, o que se vende de mentira pelas redes sociais é o câncer de nossa era, o bel do zebu (como diria aquele pastor fluminense), naquilo que a história vem sendo levada de roldão nas entrelinhas do desvalor de bem viver – e eu achava que esta circunstância errática estava limitada a interesses pontuais que as redes sociais disputam, entendendo que a racionalidade e o conhecimento estariam abrigados no circuito pensante daqueles que se preocupam com os outros...
Me tranquilizava acreditar que a histeria imbecilizante dos que trocam a história pela narrativa de interesse neoliberal teria termo em uma barreira de excelência cidadã – até que me deparei com um editorial do jornalão dos mesquita, onde se escreveu que ‘ninguém irá chorar pelo Irã’.
Ainda que não pretenda ser mais que alguém, não serei ninguém. O que sou, então? Alguém ou ninguém?
A carga negativa concentrada em ninguém vem se agigantando sobre o reino do conhecimento, onde a ciência e suas derivações materiais sempre foram íons positivos a aflorar no portfólio das virtudes de bem viver.
Hoje o conhecimento está refém do agravamento da crise econômica, em benefício de narrativas existenciais matriculadas no coach e na autoajuda – os dois novos fantasmas estéreis a rivalizar sua condição espectral com a mais reverenciada das visagens (Liberdade).
O ‘Fantasma da Liberdade’, a obra maestra de Luis Buñuel, reinou por mais de meio século sem qualquer rival, revisitando costumes e estabelecendo parâmetros, elegendo metáforas em amores loucos, espraiando sua visão anticlerical com sensíveis traços de rebeldia, transcendendo um humor negro a desaguar na fonte do lirismo pueril. Já não é assim, todavia.
Mudou o surrealismo ou mudaram seus comensais?
Deveras, as formalidades, as regras e os costumes, quando revisitados pela ótica da opulência, já não ditam as regras de sempre em um mundo exausto de egoísmo fascista. Há uma bifurcação valorativa que estabelece a ignorância mundana na mais fascinante das virtudes, naquilo que é o desconhecimento que alimenta o abuso de mal viver.
Neste contexto as personagens se repetem. Outrora justificou-se a guerra no Vietnã na defesa do estado livre (portanto, o inimigo imaginário era o comunismo). Na sequência das atividades criminosas do imperialismo vieram as guerras energéticas (petróleo) e o inimigo imaginário deixou de ser o de sempre e passou a ser o estado islâmico, sob uma roupagem mentirosa de terrorismo.
E assim seguiu a geopolítica imperialista, empilhando corpos e pilhando as riquezas que os pilgrins cobiçavam em terras outras. Tudo em nome da liberdade e sob o patrocínio dos bravos e valentes – ainda que todas as justificativas em prol da guerra fossem (como seguem sendo) criminosamente mentirosas.
Assim, a criminosa Operação Condor, por sul américa, patrocinou todas as ditaduras abaixo da linha do Equador, convolando nossa latinidade em um corredor de sangue civilizatório, à sombra dos nossos generais de aluguel.
Volto ao paradoxo da manchete do Estadão (‘ninguém irá chorar pelo Irã’), ainda bestificado com a precificação da morte que os mesquita desenharam em sua abordagem geográfico política, suposto que não divido meus momentos com quem não embala a vida e valoriza as pessoas.
Passa que entre alguém e ninguém se levanta um valor semântico: ninguém é pronome indefinido negativo que indica ausência de pessoas; já alguém segue sendo um afirmativo a indicar a existência de ao menos uma pessoa. Ambos (ninguém e alguém) são pronomes substantivos, indicando pessoas não específicas.
Então sou alguém e, nesta condição, indago a ninguém: Como pode um jornal centenário, fundado e mantido por uma família que se sucede em sua condução, trair o pacto não escrito com a verdade e ajoelhar-se em vassalagem estéril ao imperialismo, modulando o sentimento alheio?
Eu sou alguém justamente porque choro pelo Irã as mesmas lágrimas de sal (herança do mar de Portugal) que chorei por Vietnã, pelo Camboja, Venezuela, por Cuba, pelo Iêmen, Iraque, Afeganistão, Síria, pela Palestina, Somália, Paquistão e por cada lugar onde a necropolítica estadunidense mirou seus mísseis cheirando a morte.
O dia que perdermos a capacidade de chorar mortes distantes, tiradas em favor dos interesses do império, será o dia que pactuamos nossa própria morte com a existência, deixando de ser alguém e abraçando o contorno infeliz de ninguém.
Este dia nos tornará mais pilgrins do que jamais imaginariam os próprios imperialistas...
Tristes trópicos, onde a imprensa vassala da extrema direita diz do que e por quem devemos chorar.
Saudade Pai.
João Gomes Filho, advogado
***
Os artigos, cartas e comentários publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina, que os reproduz em exercício da sua atividade jornalística e diante da liberdade de expressão e comunicação que lhes são inerentes.
COMO PARTICIPAR| Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. As cartas devem ter no máximo 700 caracteres e vir acompanhadas de nome completo, RG, endereço, cidade, telefone e profissão ou ocupação.| As opiniões poderão ser resumidas pelo jornal. | ENVIE PARA [email protected]


