Gente que se move
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de novembro de 1996
José Nêumanne 
Celso Pitta prefeito de São Paulo é a realização de uma improbabilidade, mas está longe de ser um mero acidente. Seu triunfo nega peremptoriamente rótulos imobilistas que os políticos profissionais insistem em tentar colar na maior cidade do Brasil e no País como um todo, e afirma uma realidade nova e evidente, apesar de invisível para analistas cujos cérebros, moldados em convenções, não conseguem aceitar o que lhes salta aos olhos.
O futuro prefeito de São Paulo é carioca e só essa condição basta para rasgar o rótulo limitado do provincianismo paulistano. Onde se escondeu o bairrismo se o senador José Serra, que fez de seu berço na Mooca um cavalo de batalha de sua campanha, sequer conseguiu chegar ao turno definitivo da eleição, apesar de sair pela cidade afora de braços dados com o presidente e o governador? Como esquecer que Luiza Erundina, que disputou o segundo turno com o vencedor, veio de mais longe ainda, do sertão da Paraíba?
Para quem não tinha prestado atenção nos detalhes, lá vai mais um: faz tempo que os quatrocentões não disputam nada em São Paulo. Se Erundina é mulher, nordestina e pobre, seu sucessor na prefeitura, Paulo Maluf, descende de libaneses - ele, o turquinho da serraria. Além de carioca, Celso Pitta é negro. Onde, então, guarda sua força mitológica a elite de São Paulo, que o PT enfrentou em sua campanha, numa luta semelhante à do Cavaleiro da Triste Figura contra os moinhos de vento? Que sociedade excludente é esta que escolhe para governar seu destino forasteiro sem sobrenomes pomposos, criado em famílias que nunca possuíram cafezais nem habitaram casarões de onde partiram entradas e bandeiras?
Os sociólogos do PT que me perdoem, mas, quando eles enchem a boca para se queixar da oligarquia, só conseguem provar que têm perdido uma eleição atrás da outra justamente por não conseguirem enxergar um palmo adiante do nariz no novo, enriquecedor e inquietante panorama em seu redor. O Brasil não é mais um país rural submetido ao tacão das botas dos coronéis nordestinos e dos caudilhos gaúchos. Produz a décima maior economia do mundo numa sociedade plural, variada, complexa e, sobretudo, urbanizada.
Uma característica desta gente é a mobilidade: move-se na história, na geografia, na economia e na política. Por isso, não pega mais aquela história velha da política brasileira do tostão contra o milhão, bandeira de todos os gêneros de populismo. No Brasil de hoje, pobre vota em rico, rico vota em pobre e ninguém se envergonha mais de suas opções. Erundina não venceu Maluf apesar de ser ela pobre e a maioria do eleitorado também. Por ainda não haver entendido isso, ela acabou de perder para Pitta, da classe média emergente. Da mesma forma, é uma boba ilusão achar que Maluf comprou a prefeitura com a dinheirama toda que herdou de seu Salim, e que Celso Pitta foi apenas um boneco pronto para saltar do colo do ventríloquo Duda Mendonça.
A democracia brasileira ainda é adolescente do ponto de vista institucional, mas já ganhou maturidade suficiente para superar os velhos vícios rurais do autoritarismo dos cornéis e do populismo dos caudilhos. O eleitorado urbano não se submete mais a cabrestos - nem mesmo ao ideológico. As desesperadas tentativas que o ministro Sérgio Motta fez para jogar a sardinha de Maluf na brasa dormida de seu passado não rendeu um mísero voto para José Serra, seu candidato tão politicamente correto, coitado.
À falta de instituições sólidas capazes, por si sós, de garantir a vigilância sobre os governantes, o cidadão brasileiro contemporâneo, urbanizado recentemente, mas já adaptado ao ritmo das cidades, mostrou saber escolher os gestores dos negócios públicos com os dois olhos fixos em seus currículos. Não lhes pediu atestado ideológico nem se interessou pela ficha partidária que assinaram. Só quis saber o que cada um deles pensa fazer para melhor atender a sua rua e a seu bairro. Ou seja, o povo sabe votar, sim.
Alguns taparam o nariz e chamaram essa atitude de democracia de resultados. Não adianta fazer cara feia. No mínimo, é algo que pode resultar em democracia - no amplo sentido da palavra. E só isso já vale uma boa comemoração. Os incomodados podem se retirar (afinal, lhes resta o direito constitucional de ir e vir, que é de todos). E se esconder em algum grotão, enquanto existir algum desses pelo interior rural do Brasil.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde, de São Paulo.


