Eles chutam o pau da barraca, rodam a baiana, têm chilique, perdem as estribeiras, mandam tudo às favas. Gente que ''ferve'' ao ser contrariado ou perde o controle por não ter seus desejos atendidos costuma protagonizar cenas marcantes. Algumas entram para a história como a do compositor Sérgio Ricardo que, irritado com a vaia do público, descontou a ira no violão durante apresentação no festival de MPB em 1967.
Os chamados ''pavio'' curto dificilmente se arrependem de seus atos. O consultor Edson Bezerra da Silva, 43 anos, lembra que fez um assessor comer metade de um envelope de papel depois de descobrir que perdeu o prazo de uma licitação, que poderia garantir recursos para a ONG que coordena, por culpa do funcionário. ''O rapaz não fez o que tinha que ser feito, mentiu e ainda por cima queria ter razão'', lembra. Ele coordena a ONG Adé Fidan (Homem de Fino Trato) que desenvolve projetos com travestis, homossexuais, garotos de programa e profissionais do sexo.
Outra cena que Edson da Silva jamais vai se esquecer ocorreu há mais de 20 anos. Trabalhando como profissional do sexo, foi discriminado em uma lanchonete da cidade. Ao ser informado pelos funcionários de que o proprietário não aceitava ''esse tipo de gente no seu estabelecimento'', não pensou duas vezes. ''Nem eu nem ninguém mais foi atendido porque joguei na rua as estufas com os salgados'', recorda.
Mesmo assegurando que hoje já mudou muito e que aprendeu a pedir desculpas, o consultor ainda não consegue controlar a raiva em locais como o Terminal Urbano de Transportes Coletivos. Dias atrás pôs para fora do coletivo o adolescente que desfez de quem aguardava a vez para entrar no ônibus. O jovem, além de não entrar na fila, ainda tentou garantir um assento, passando na frente das pessoas. ''Ele olhou para mim e achou que não era capaz de brigar com ele. Duvidou de mim e levou a pior'', comenta Edson da Silva.
Outro que costuma não levar desaforo para casa é o taxista Ildefonso Delarosa. Aos 73 anos, ele enfrenta diariamente o estresse causado pelo trânsito da cidade. Vira e mexe bate boca com mulheres que, segundo ele, são espaçosas, demoram para cruzar o semáforo e ocupam a vaga de dois veículos para estacionar. ''Elas me torram a paciência'', diz.
Conhecido pelo temperamento, o taxista não só recusou algumas corridas como já expulsou cliente do carro. Mais: em duas ocasiões usou o carro contra motoristas que o provocaram no trânsito. ''Um deles foi um rapaz que estava com a namorada e ficou enrolando. Ele beijava a namorada, ria na minha cara e não dava espaço para eu passar'', lembra Delarosa. Com o sangue na cabeça, o taxista ultrapassou o carro pela contramão e o fechou. ''Ele estava amassando a namorada e ficou com o carro amassado também'', ri.
O outro carro amassado por Delarosa foi de um colega de ponto. ''O cara disse que eu tinha passado na frente e pego o lugar dele. Não fiz isso'', garante. Assim que o companheiro colocou o carro na frente do dele, Delarosa engatou a primeira, episou com vontade no acelerador. ''Precisaram chamar um guincho para tirar meu carro debaixo do carro do outro'', recorda.
Delarosa comenta que o comportamento explosivo vem desde a infância. Por não concordar com a forma como seu pai tratava os 15 filhos, ele saiu de casa aos 12 anos e foi morar com uma outra família. Na juventude, nunca fugiu das brigas e, ao ser desafiado, não deixava barato. ''Um dia, num bar, um cara disse que eu não tinha coragem de atirar no pé dele. Ele disse isso uma vez e foi pro hospital'', recorda. ''Eu sou pavio curto, mas nunca procurei briga. Só reajo se me provocam''.

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