Se há algo que Augusto Pinochet jamais conseguiu ser é uma unanimidade. Ele está sempre nos dois pólos da situação. Ou é considerado um herói ou é chamado de criminoso, genocida. Em 11 de novembro de 1973, período em que se acreditava que comunistas comiam criancinhas, ele deu um golpe de Estado e pôs abaixo o governo socialista de Salvador Allende. O então presidente morreu no bombardeio ao palácio La Moneda.
O general é acusado de mandar prender, torturar e matar durante a ditadura militar que durou até 1990, quando foi restaurada a democracia no Chile. Mas, apesar de tudo isso, Pinochet cativou grande parte da população. Pelo menos um terço dos chilenos apóia abertamente seu ex-líder.
Durante os anos que se seguiram à redemocratização, os chilenos mostraram-se divididos quanto ao julgamento e punição dos responsáveis por mortes e desaparecimentos, inclusive de estrangeiros, considerados subversivos. Mas os dirigentes do país preferiram não reabrir feridas.
Essa divisão foi refletida no Congresso. Em março deste ano o comandante-em-chefe do Exército trocou a farda pelo pijama, para ocupar o cargo de senador vitalício, respaldado na Constituição criada por ele mesmo. Muitos parlamentares reclamaram, muita gente foi às ruas protestar, mas de nada adiantou. O ex-ditador, de 82 anos, ocupou seu lugar. Pinochet ficou praticamente esquecido durante meses. No início de outubro, ele teve que viajar a Londres. A visita teria dois motivos, um pessoal - tratamento de saúde - e outro oficial - negociação de compra de armas para seu país.
Tudo ia bem para o general até que o juiz espanhol Baltasar Garzón, que investigava a morte e desaparecimento de espanhóis durante as ditaduras na Argentina e no Chile, pediu à Justiça britânica a detenção de Pinochet na clínica em que se recuperava. Garzón quer a extradição do ex-ditador com o objetivo de julgá-lo pelos crimes cometidos durante os 17 anos de governo de fato. Mais uma vez, o ex-presidente chileno tornou-se motivo de polêmica e voltou a exercer seu papel de divisor. Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica condenou a prisão. Ela alegou que Pinochet, seu amigo pessoal, foi um bom aliado do reino de Elizabeth II na Guerra das Malvinas, travada em 1982 com a Argentina.
Parte da comunidade internacional defende o julgamento do general em terras estrangeiras. Apóiam o conceito de extraterritorialidade pregada pela Justiça espanhola. No entanto, há quem queira que Pinochet responda às acusações que lhe são imputadas, mas no Chile. E há, ainda, um terceiro grupo, que não quer saber de julgamento de jeito nenhum.
No Chile, como não podia deixar de ser, a população espera dividida, em vigílias pró e contra o senador vitalício, por uma decisão da mais alta instância da Justiça britânica, a Câmara dos Lordes. Ali, cinco juízes definirão se o general volta para o seu país de origem ou se é mandado à Espanha.
- CLAUDIO CAXITO é jornalista em Brasília

mockup