Geada Negra de 1975: um Paraná que emergiu da lavoura queimada
Fenômeno que acabou com milhões de pés de café atingiu a tudo e a todos; cidades foram ressignificadas em busca de novas atividades econômicas
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sexta-feira, 18 de julho de 2025
Fenômeno que acabou com milhões de pés de café atingiu a tudo e a todos; cidades foram ressignificadas em busca de novas atividades econômicas
Roberto Bondarik 
Completamos 50 anos do mais traumático conjunto de transformações que o Paraná vivenciou no século XX: a Geada Negra de 1975. Dela adveio a erradicação da cafeicultura como um modelo econômico, social porque não dizer cultural hegemônico. Isso levou a efeito também mudanças demográficas, sociais e políticas que produziram um novo modelo de organização no Norte do Estado.
A Geada Negra foi o fenômeno natural que fez erradicar, acabar com milhões de pés de café do campo paranaense na alvorada daquele 18 de julho de 1975. A destruição do café fez abrir a área de cultivo para novos gêneros com aceitação no mercado e bons preços, eram sazonais, um desastre não demandaria anos de replantio e tratos culturais. A mecanização do cultivo do milho, trigo e em especial da soja, não demandava mais mão de obra de famílias inteiras, agora sem café e sem sustento, mas apenas operadores especializados.
Uma nova legislação em 1963 havia dado fim ao colonato, sistema no qual o trabalhador residia com sua família na colônia das fazendas. O colono cuidava de um lote de cafeeiros, recebia valor fixo por manejo. Como parte do salário a família podia plantar gêneros de subsistência entre as ruas do cafezal e em terrenos inapropriados à cafeicultura. A qualidade do trabalho era garantida por sua participação no resultado da colheita. Era uma sociedade agrária com necessidades supridas na própria fazenda, mas refém de uma plantação permanente em grande escala, sujeita aos dissabores do mercado e do clima. O pequeno proprietário também se arriscava nesse mercado. A aplicação das leis trabalhistas urbanas ao campo colocou fim ao colonato, limitou as famílias nas fazendas, mas não erradicou a cafeicultura.
Não apenas os colonos e pequenos proprietários foram atingidos, a economia regional também o foi. O mercado dependente do café não era formado apenas por seus produtores, corretores, beneficiadores, exportadores, transportadores etc. Era muito mais amplo, envolvia os armazéns que vendiam os secos e molhados, ferragens, medicamentos, serviços de saúde, atingia a tudo e a todos. Havia um mercado de crédito que sustentava o comércio de diversos gêneros, baseado na colheita futura do café, garantido por empresas corretoras do produto, os grandes centros do País forneciam os mais diversos produtos manufaturados ou alimentícios. Em uma época sem geladeiras, o bacalhau que se consumia aos montes não era pescado no Rio Paranapanema. Todos foram atingidos.
As pessoas tiveram de se mudar das áreas rurais. Segundo o IBGE, no final da década de 1970 a região perdeu 1.134.522 pessoas da sua zona rural, 592.193 mudaram-se para cidades médias ou grandes do Paraná, 542.329 saíram do Estado. Há bairros inteiros em Curitiba formados por migrantes do Norte e do Norte Pioneiro do Paraná, igualmente existem em cidades de São Paulo ou em sua região metropolitana. O norte do Mato Grosso foi ocupado por paranaenses de diversas regiões, Rondônia tornou-se de Território Federal em Estado graças, em grande parte, a esse afluxo. O efeito sobre a Amazônia e suas matas foi semelhante ao verificado no Norte do Paraná nos anos 1930.
As cidades foram ressignificadas, buscando novas formas e atividades econômicas. A organização política transmutou-se, o estilo coronelista e patriarcal, vigente em uma sociedade que vivia sob o mando do fazendeiro, não fazia mais sentido ou fundamento. O político tornou-se mais populista, atendendo novas demandas das cidades infladas por novos moradores: habitação, saúde, educação, transporte etc. A democracia passava a fazer sentido como vontade da maioria e não do desejo de poucos. Foi uma nova realidade.
A Geada Negra de 1975 fez o Paraná mudar, nós nos transformamos. Lembramos do passado, vivemos o presente somos resilientes, temos o Pé Vermelho!
Roberto BondarikProfessor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio


