Gaudêncio Torquato Chances para perfis brucutus
Chances para
perfis brucutus
Gaudêncio Torquato
O Brasil da globalização, da estabilização econômica e das liberdades democráticas é incompatível com um território autoritário, alimentado pela arbitrariedade, pela desordem e pelo messianismo salvacionista de perfis fascistóides. Esta é uma hipótese difícil de ser refutada, principalmente se levarmos em consideração a crescente liderança do país na moldura latino-americana e até o emergente posicionamento brasileiro na mesa das negociações que envolvem as grandes Nações. Não é à toa que o Brasil apresenta a recorrente reivindicação para ocupar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Mas será que o alinhamento democrático do Brasil é forte o suficiente para afastar qualquer ameaça de um regime autoritário? Em palestras que tem proferido nos mais diversos ambientes, o presidente da Câmara, Michel Temer, tem chamado a atenção para um fato inquestionável: ao longo de sua história contemporânea, o País tem atravessado ciclos sucessivos de democracia e autoritarismo. Na área partidária, desde a Independência, o País já teve sete diferentes regimes partidários.
Um golpe militar criou o Estado republicano, em 1889, surgindo, em 1891, a primeira Constituição. Tivemos um período democrático até a revolução de 30, quando se constituiu o governo provisório de Vargas. Depois, tivemos novos atos de força, que geraram o Estado Novo e a Constituição de 1937. Abrimos mais um ciclo democrático com a Constituição de 1946, interrompido pelo golpe militar de 1964 e o regime ditatorial. Em 1985, instaura-se a 4ª República, consolidada pela Constituição de 1988, que passou a exprimir a emergência dos grupamentos sociais na composição do poder.
A ciclotimia que tem balizado o sistema político nacional tem muito a ver com a situação de deterioração do País e o consequente estado de ânimo das elites e das massas. O regime militar só pegou, porque o ambiente social, conturbado, abria condições para sua implantação. As classes médias acorreram às ruas em passeatas. E o que tem isso com a atual situação do país? Quase nada. Mas não se pode deixar de ver um certo movimento embrionário, recheado de indignação, que clama, sobretudo, pelo sentido da autoridade e da ordem.
É claro que, hoje, as circunstâncias moldam novas demandas e impedem retrocessos autoritários. O momento é outro; eixos mudancistas foram fincados; a reconfiguração do Estado avançou, com as reformas econômica, administrativa e previdenciária; as reformas Tributária e do Judiciário estão em curso. Sob esse aparato modernizante, persistem, porém, velhas mazelas que estão a gerar um estado de descrença, desânimo e, em certas regiões, muito desespero. A violência está assumindo proporções absurdamente inaceitáveis. O mar de lama que assola o País, jorrando denúncias e escândalos, cria um imenso vazio no meio da sociedade. Trata-se de um paredão que separa os grupamentos sociais das instâncias e poderes constitucionais. Ou seja, a população, descrente e desconfiada, se afasta das instituições, até porque elas não conseguem sustar as ondas criminosas que se avolumam.
A ausência de uma forte autoridade um poder capaz de restabelecer confiança, equilíbrio e segurança é o que a população reclama. Freud, um dia, observou: a maioria dos humanos experimenta a imperiosa necessidade de admirar uma autoridade, perante a qual possa inclinar-se e pela qual seja dominada e, por vezes, até maltradada. W. Reich aduziu: a necessidade do homem em ter orientação autoritária e disciplina fundamenta-se na estrutura anti-social. Isto é, a desorganização de valores e princípios da sociedade motiva os grupamentos à procura de novos eixos e perfis.
Se olharmos para os cenários de São Paulo e Rio de Janeiro; se consideramos a insatisfação dos contingentes periféricos, assolados pelos mais variados tipos de violência, a partir da violência da miséria; se considerarmos que estratos médios também estão insatisfeitos; se analisarmos que os parceiros das denúncias acabam, no final, se fartando com uma grande pizza, a conclusão pode não ser tão estapafúrdia: no jogo político, brutamontes capazes de fazer falta, ameaçar juízes, cavar penalidades máximas e fazer gols violentos podem ser ovacionados pela torcida.
GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e consultor político





