Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
As chances de
três pescadores
As últimas pesquisas eleitorais, mais que uma fotografia momentânea sobre intenção de voto, revelam o estado de alma do brasileiro. E permitem inferir sobre as possibilidades dos candidatos. Como a política é uma ciência humana, sujeita às circunstâncias e ao comportamento coletivo, supõe-se que os principais candidatos conservam chances de obter a vitória. Entre os aspectos relevantes captados numa sub-leitura das pesquisas sobressai o fato de que o eleitor, nesta eleição, parece mais interessado e envolvido com o processo político. E não estaria disposto a tomar decisões definitivas a meses antes do pleito.
A situação de quase empate entre Fernando Henrique e Lula indica que o eleitorado está impondo um castigo momentâneo ao presidente. Quer ver como ele se sai do purgatório onde foi colocado. Se conseguir dar respostas satisfatórias às críticas da área social, poderá escalar o caminho do paraíso. A coletividade nacional está tomada por um sentimento de mesmice. E reage como voto apontado para um horizonte de mudanças. Já não se satisfaz com o prato que combina alimentos do Real e estabilidade econômica, excelência do perfil intelectual do presidente, satanização de Lula e do PT radical. Isso é página virada.
Corre nas veias do povo um sangue oposicionista. Lula ainda dá medo, mesmo que se esforce para abrir frentes de simpatia junto às forças produtivas. Começa a alisar o capital internacional, com o argumento de que sua política econômica estará voltada aos ajustes, para correções que não fragmentariam os eixos principais do sistema. Mas o espaço que Lula ganha, Brizola destrói. Retomar ao Estado a Vale do Rio Doce, por exemplo, sob a alegação de que se trata de empresa estratégica, é uma intenção de retrocesso. Pois é isso que Brizola defende. E é esse terreno jurássico o campo ideal para a estratégia de satanização de Lula, comandada por grupos governistas. Ocorre que a maior parcela do eleitorado não mais se sensibiliza com tal discurso.
O que estará em jogo, mais adiante, não será o adjetivo, mas o substantivo. Ou seja, a peroração-chavão não motivará o eleitor. A expressão programática será o divisor de águas. Não adiantará muito lembrar o que foi feito. O eleitor estará querendo saber o que vai ganhar, no curto e no médio prazo, que tipo de ação será desenvolvida para melhorar a sua qualidade de vida. É claro que será cobrado de Fernando Henrique o que ele deixou de fazer. Nesse clima, a campanha poderá ganhar intensidade no eixo da polarização. As chances de Lula estarão atreladas à degradação crescente da área social e ao adensamento difuso e generalizado do conceito de que o Governo esgotou sua capacidade de agir e, mais ainda, de reabrir as luzes da esperança.
Caso a polarização se transforme em arenga rancorosa, o eleitorado poderá vislumbrar em Ciro Gomes um ícone diferenciado. Mas o ex-governador do Ceará terá de se submeter a um intenso regime de humildade, coisa que não demonstra possuir. Ciro parece estar num pedestal e passa a imagem de arrogante, rancoroso, verborrágico e apreciador de conceitos fulminantes, do gosto dos extremados. Seu desafio é o de se mostrar como a alternativa diante de um presidente que esgotou as possibilidades (FHC) e de um candidato-sparring, que apenas cosmetizou sua imagem. Com espaços maiores na mídia, tem chances de crescer. De Enéas, resta concluir que é o centro de convergência da insatisfação mais radical da direita, não lhe restando possibilidades de abrir grandes fendas na sociedade.
Fernando Henrique e Lula são dois pescadores no rio. Ciro está saindo para pescar. O primeiro já tem o peixe na isca. O segundo vê o peixe se aproximando. O peixe do primeiro ainda pode escapar. Que os bons pescadores calculem as chances dos três.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor titular da USP





