Gaudêncio Torquato
Candidatos e a Copa
Futebol é paixão. Política é emoção e razão. Os campos entre política e futebol se bifurcam na estrada dos mecanismos psicológicos. Futebol oferece uma recompensa imediata, por meio das catarses individuais e coletivas. Política gera recompensas mediatas, mais retardadas, mas não deixa de exibir seu aspecto lúdico e catártico, principalmente nos showmícios, passeatas e festas da vitória. O país está abrindo o espaço de um e refluindo o espaço de outra. Não há como deixar de se estabelecer a inevitável equação:
A lógica faz as suas indicações. O cenário de vitórias favorecerá o situacionismo. Ou seja, caso o Brasil traga a taça, serão beneficiados os governantes candidatos à reeleição. Um processo cognitivo geral unirá os eixos da vitória ao status quo, beneficiando aqueles que o controlam. Foi assim com o presidente Médici, em 1970. Poderá ser assim com Fernando Henrique. A coletividade abre os corações, estufa os pulmões e entoa um canto cívico de saudação e homenagem aos vitoriosos. Nas entranhas do subconsciente, desenvolve-se o manto protetor de jogadores e candidatos. Mecanismos psíquicos de identificação e projeção selam a integração dos dois atores sociais. Um processo de substituição afasta as dores, as angústias e o sofrimento torna-se menor. O povo, em sua plenitude, vibra e a catarse que o embala acaba se transformando no tapete vermelho por onde desfilarão os governantes.
A derrota trará o sabor da amargura. E a amargura fará brotar e crescer, rapidamente, a semente da dissensão, da raiva, da contrariedade. As imagens de uma derrota do Corinthians, no final de um Campeonato paulista, servem para traçar as cores do cenário: quebra-quebra de ônibus e automóveis, pedradas nos adversários, brigas homéricas e um estado geral de desolação. Multiplique-se isso ao infinito e tem-se o quadro geral da Nação, com uma derrota na Copa.O mesmo raciocínio se aplica aos governantes. Serão colados ao sentimento de negatividade que correrá pelas veias da sociedade política. Aqueles que lutam contra os atuais mandatários certamente serão beneficiados.
Não se pode afirmar, a partir dessa arquitetura conceitual, que Lula estará eleito com a derrota brasileira na Copa e Fernando Henrique com a vitória. Mas é razoável se pensar na hipótese de que a festa e o velório gerarão maior facilidade para um e maior dificuldade para outro no terreno eleitoral. Esse efeito será menor nos Estados, mas não estará de todo afastado. O espaço mais estreito da política tende a ser melhor administrado pelos governadores. Por isso mesmo, eles têm condições de apagar o fogo, principalmente quem está fazendo obras de caráter social. O eleitorado, porém, está vacinado contra o oportunismo eleitoreiro. Já sabe separar os espaços da sinceridade e da demagogia.
O refluxo da política no ciclo da Copa não será intenso, como muitos pregam. Pensar que a campanha será menor ou mais atenuada é um erro de interpretação. Teremos a campanha mais contundente e impactante da história política contemporânea. Será uma campanha bem profissionalizada nas áreas do discurso, do marketing, das pesquisas, da mobilização, da articulação, da criatividade e da agilidade. O que fazer entre um jogo e outro? Parar para descansar, ficar comemorando, recolher-se no silêncio ou acelerar o ritmo? Usar o bom senso. Significa continuar a campanha, na onda dos climas locais. Há momentos de liturgia e silêncio. Há momentos de informalidade e comemoração. E há momentos alternados de contenção e vibração. Política, como futebol, é paixão, razão e sensibilidade.
- Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP

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