Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
Uso e abuso
do dinheiro
Nesses tempos de crise - desemprego, juros altos, inadimplência, sistema de saúde pública em estado precário, violência indiscriminada, seca no Nordeste - quem tem dinheiro para fazer a campanha eleitoral leva vantagem. Afinal de contas, os candidatos de bolsa cheia poderão garantir maior visibilidade, cooptar cabos eleitorais, atrair apoios de prefeitos e vereadores, organizar melhor o barulho das carreatas, passeatas e comícios. Mas é oportuno que se lembrem de uma coisa: a força do dinheiro não é fator exclusivo de sucesso. E dinheiro mal gasto poderá até se transformar em bumerangue, ou seja, voltar-se contra o próprio candidato.
A essa altura, já dá para observar que, em alguns Estados, não faltará dinheiro para as campanhas. Os programas de obras comandados por governadores demandarão um apreciável volume de dinheiro, podendo-se imaginar que fornecedores e tomadores de serviço mantêm certo interesse em ajudar aqueles que pleiteiam a reeleição. Não se pode descartar, ainda, o avantajado programa de privatização das companhias estatais. Apesar da intensa fiscalização por parte das oposições, da Justiça Eleitoral e dos Tribunais de Contas, sabe-se que os buracos da legislação eleitoral e a cultura política, que gera um poder invisível, acabarão gerando desvios na prestação de contas.
Há governadores que estão usando recursos da privatização para programas de obras meramente eleitoreiras. Algumas chegam a ser mesmo perfunctórias e cosméticas. As obras, pulverizadas por todo o Estado, vão criando manchas de visibilidade, servindo para atenuar pequenas dificuldades e esconder os principais problemas. No Nordeste, por exemplo, grandes contingentes passam fome, há dinheiro em alguns Estados para se realizar um amplo e definitivo programa de obras contra as secas, mas opta-se pela divisão eleitoreira das verbas. No Ceará, o governador Jereissati pretende usar R$ 1,2 bilhões da privatização apenas em duas grandes obras: um abrangente programa de construção de açudes, interligação e perenização de rios e a criação de um Fundo de Previdência para o funcionalismo público. Essa é uma visão de prioridades, voltada para o equilibrio social e econômico do Estado.
Saber gastar bem não é apenas uma questão de planejamento e técnica. É, também, uma questão de coragem política. Pois a distribuição generalizada de verbas, em muitos casos, apenas contribui para a perpetuação dos estados de miséria, a permanência do status quo, que interessa aos feudos políticos. Não se descarta a possibilidade de grupos de eleitores, contrariados com a ajuda a alguns grupos e o esquecimento de outros, acabarem desaprovando a conduta das lideranças, cedendo o voto às oposições. Ou seja, não adianta combinar o jogo apenas com o técnico. Mais importante é acertar a tática com os jogadores. Ou será que o povo, para certos políticos, é apenas um detalhe?
Nesse sentido, é de se registrar o fato de que candidatos majoritários usam ainda artifícios ultrapassados e fórmulas gastas. Para inocular suas candidaturas com cheiro do povo, chegam a criar Movimentos Populares, imaginando que tal idéia criativa energizaria as multidões, carrearia massa de apoios, tornaria seus nomes mais simpáticos às classes pobres. Mas tais movimentos, em sua generalidade, são patrocinados por elites empresariais, que, convenhamos, não gostam de respirar o cheiro do povo.
GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista e professor titular da USP





