Gaudêncio Torquato
O discurso de Zaratustra, o pródigo e sábio filósofo de Nietzsche, é um banho de oxigênio para os governantes que abrirão o primeiro ano do novo milênio: Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas. O recado é oportuno, principalmente para os governos cansados, sejam eles comandados por governadores no meio do segundo mandato ou por prefeitos que acabam de ser reeleitos. A doença que os aflige tem nome: rotinite. E as consequências são drásticas para os corpos administrativos: acomodação, ausência de criatividade, expansão da malha de interesses grupais, favorecimentos, saturação de idéias, obsolescência de estruturas. E tudo resulta em administrações que patinam, ou seja, movimentam-se para ficar no mesmo lugar.
Um governo cansado é uma usina improdutiva. Os comandos dirigentes das áreas e setores são sonolentos e catatônicos. Parecem dândis andando no deserto infértil. As reuniões são recheadas de bocejos preguiçosos. As barrigas que governam ficam assustadoramente protuberantes e as caras mais se assemelham a bolas estufadas de ar. O poder, sabe-se, é afrodisíaco, e, talvez por isso mesmo, os governantes, com seu ganho de peso, prefiram o figurino dionisíaco (encurvado e gordo) ao perfil apolíneo (ereto e atlético). Até as mulheres governantes parecem não mais festejar as curvas que as distinguem das massas quadradas e frequentemente desalinhadas de seus parceiros. Mas isso não importa. O que importa mesmo é o ritmo das administrações, que se tornam lerdas e ineficientes depois de anos com os mesmos dirigentes, nos mesmos lugares, fazendo as mesmas coisas.
Por isso, urge usar novas solas para a caminhada do terceiro milênio. Reformar é preciso. E uma reforma pode começar com uma repaginação horizontal no organograma administrativo, entendendo-se, por isto, uma mudança de posições entre pessoas e áreas. Nesta mudança cabem novos figurantes, perfis assépticos, menos comprometidos com as práticas da velha política, pessoas respeitadas pela comunidade, em função do exercício profissional, do caráter e de sua história. Pode-se partir também para uma repaginação vertical, que consiste no redimensionamento de programas e estruturas, com redefinição de prioridades, fusão de áreas e setores. O ciclo de racionalidade sugere economia de custos, espaço e tempo.
Não é fácil mudar uma rotina. Mas um exercício de reflexão, um mergulho profundo nas malhas dos governos, um reordenamento estratégico podem ajudar os governantes a saírem da prisão em que estão retidos. Na verdade, só com oxigênio novo as administrações poderão dar respostas que as comunidades exigem. Mesmo para os novos prefeitos, são aconselháveis indicações com perfis assépticos, programas criativos e simples, estruturas pequenas, projetos de fácil implantação, atendimento às demandas geradas pelas urnas.
O final de ano é tempo de reflexão e novas escolhas. Deve ser utilizado para a reengenharia da administração e lubrificação das máquinas funcionais. Trata-se de uma decisão que seguramente vai alavancar os governos, tirando-os do estado amorfo em que muitos se encontram. O pior de tudo é saber que muitos mandatários, depois de um bom tempo, imaginam que os governos que comandam lhes pertencem. Imaginam-se como donos das coisas e dos valores. E nem ouvem mais o eco das urnas. Tornaram-se insensíveis. Embriagaram-se com o poder. Assemelham-se ao João que caiu num poço profundo, que não ouve, não vê e nem sente. Um desconhecido se aproxima do poço e lança uma corda para João subir por ela. Mas João, surdo, continua tentando subir sozinho pelas paredes. O desconhecido joga uma pedra. João sente a dor e olha para cima irritado, sem compreender. Grita furioso: O que você quer? Não vê que estou ocupado? O desconhecido grita: Pegue a corda e saia. E ele responde, fulo da vida: Não tenho tempo para me preocupar com sua corda. João, como muitos governantes, não vê que não vê, não sabe que não sabe.
GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail:[email protected]





