GASTAR, GASTAR, GASTAR - Comprar sem limites é distúrbio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Fábio CavazottiReportagem Local 
Jorge Martins adorava colecionar tampinhas de garrafa, figurinhas e outros objetos quando criança. Mais velho, a ''paixão'' se tornou compulsiva e migrou para produtos culturais - coleções de livros e filmes. No auge da dependência, deixou de quitar despesas essenciais de casa para satisfazer sua mania, ainda que já não lesse mais os livros que adquiria. Resultado: ao perder o emprego, ele não tinha qualquer reserva financeira e passou a vender seus objetos por uma fração do que pagou. As dificuldades para a família e sua própria vida o levaram a procurar ajuda. Em 2001, ele conseguiu formar em Londrina o primeiro grupo do ''Devedores Anônimos'' (D.A.). Jorge Martins é seu codinome no grupo.
O que é a oneomania?
É um distúrbio no controle dos impulsos que faz a pessoa gastar, gastar, gastar, ou se endividar, se endividar, se endividar, sem limites. Nós temos dois tipos de frequentadores. O primeiro é aquele que tem problema de compulsão por compras, ou seja, ele pode não estar endividado, mas quer aprender a enfrentar e controlar o impulso de compra. E temos também o devedor compulsivo, que é o cara que perdeu o controle das contas, está devendo, não consegue pagar e se transforma num especialista em administrar dívidas. Infelizmente, no Brasil, isso ainda não é reconhecido como problema de saúde pública, mas nos países de primeiro mundo a oneomania já é tratada como doença.
Quantos sofrem da compulsão por gastos?
Não existe pesquisa oficial sobre a oneomania no país, mas o Serasa (empresa especializada em avaliação de crédito) lançou uma publicação em 2001, chamada Guia do Consumidor, citando que aproximadamente 6% da população tem esse problema de compra por impulso ou endividamento compulsivo.
Como é o tratamento?
Quando a pessoa chega ao fundo do poço, não consegue sair sem apoio. O primeiro passo é o resgate do bem-estar pessoal. A gente trabalha uma moratória das dívidas até ela se recuperar psicologicamente e aprender a controlar as compras por impulso. A partir daí, a gente faz um diagnóstico para descobrir o tipo de vício financeiro que a pessoa tem e o que ela deve fazer para sair. Após a moratória, fazemos um planejamento para a pessoa enfrentar os credores e quitar seus débitos.
A compulsão por jogos de azar faz parte?
Sim. Temos em nosso grupo pessoas compulsivas por jogo. O D.A. ajuda muito nesses casos porque a compulsão por jogo faz parte de um vício chamado caçador de ilusões, que tem vários requisitos ligados ao débito compulsivo.
O consumismo compulsivo também atinge jovens?
Existem crianças com esse problema. Por isso, em países do primeiro mundo, desde a pré-escola existem ensinamentos para evitar a oneomania. A educação financeira serve de proteção para a criança não cair nas armadilhas do consumismo.
Quais as repercussões sociais da oneomania?
A facilidade do consumismo é ótima para quem tem crédito. Mas, a partir do momento em que perde o crédito, que se torna inadimplente, ela passa a ser discriminada pela sociedade. Aí está o maior problema. O inadimplente se isola e passa a ter problemas terríveis com a família e com a comunidade.
Existem produtos que despertam maior compulsão?
Sim. Nós tivemos membros no grupo com compulsão para a compra de carro zero quilometro. Um participante chegou a possuir mais de 20 carros novos. Só que, mesmo ganhando bem, acabou passando por dificuldades financeiras tremendas e percebeu que o vício o prejudicava muito.
Serviço:
Informações sobre o D.A. em Londrina podem ser obtidas na secretaria da Catedral, pelo (43) 3324-5255, ou no www.devedoresanonimos-rj.org.


