Se, com algumas variações, a moeda circulante no Brasil é sempre a mesma, por que tivemos períodos de grande prosperidade e outros de escassez? A resposta é que em certos períodos o dinheiro circulou, e em outros ficou parado; que houve época em que se gastou e outra em que se poupou. Gastamos porque o dinheiro circulou ou o dinheiro circulou porque gastamos? Gastamos porque temos dinheiro ou temos dinheiro porque gastamos? A mesma coisa. A revolução do desenvolvimento se manifesta através dessa dinâmica.
Óbvio que não se pode consumir se não há produção, mas o governo de FHC tem um pavor terrível de que as pessoas tirem o dinheirinho da poupança e gastem. Pois crê que, gastando, levem o País à inflação. Então, pela sabedoria do sociólogo-presidente, não iremos morrer do mal da inflação, mas acabaremos morrendo de inanição... Aí nos encontraremos com ele no Purgatório e lhe faremos ver que morremos todos, e ainda ouviremos dele, renitente: ‘‘Mas não houve inflação!...’’
Adiantará produzir sem consumir? Impera aí um paradoxo: o governo propaga ideais desenvolvimentistas mas adota políticas que inibem o consumismo. O processo natural é produzir para consumir, e consumir para que a produção não cesse. Não há consumo sem produção e não há produção sem consumo.
O conceito clássico de que não se cria riqueza sem poupança foi entendido pelo brasileiro como ‘‘botar o dinheiro na caderneta de poupança’’... Hilariante, não fosse o respeito que se deve dar à pobre cultura do brasileiro, que tanto fala em dinheiro mas tem um fascínio por seguir caminhos de pobreza, entre eles a ilusão da caderneta.
Poupar significa ganhar 10, gastar 9 e guardar 1; não gastar mais que o ganho; e também não desperdiçar.
Paradoxal também que, no Brasil, com tanto desemprego e salários baixos, o trabalhador ainda guarde algum para a poupança. E por quê? Porque, afora o consumo orgânico e as necessidades inadiáveis, impera entre as pessoas uma certa mesquinhez de reter o dinheiro – o que é diferente de poupar, com critério – ou então há aqueles que gastam sem ter, comprando a prazo num comércio que também já incorporou o negócio de viver de juros, embutidos nas prestações. Com isso o freguês potencial se revolta e deixa de comprar, pois não admite juro tão alto se a inflação oficial é apregoada como de quase zero.
O que se questiona é a política equivocada do governo de temer o consumismo, por temer a inflação. Nos países altamente desenvolvidos, o volume de consumo é elevado e a inflação é estável. Nem será preciso repetir a lista desses países, mas é sempre um bom exemplo citar os Estados Unidos, onde todos estão gordos e felizes, no dizer dos próprios americanos, para definir-se como um povo que – afora suas questões existenciais e outras que os atribulam – sempre viveu em paz com o dólar.
No Brasil, o maior inimigo do real é o presidente Fernando Henrique, que diz tê-lo criado, embora Itamar afirme que o real é dele. Porque FHC não confia no real, teme que circule por aí, tem ciúme dele e por isso o mantém preso. Receia que o real em liberdade se contamine por algum vírus, o de gerar consumismo e inflação. Uma visão paranóica, que, infelizmente, considerável parcela da população acha verdadeira. Por ter ouvido dizer...
Por isso FHC, que não escuta o Brasil aqui das bases mas apenas o seu conselheiro-mór – aquele – ou no máximo apenas mais um, manda segurar os juros altos, para que ninguém ouse buscar dinheiro. Porque, por esse entender vesgo, juro alto segura a estabilidade da moeda. Mas... segurar que moeda estável? O real é uma moeda estável? Melhor dizer que é estática... Estável deve ser uma moeda que gera riqueza e desenvolvimento, o que não é o caso do real.
Dinheiro é cigano e foi feito para circular, para mudar de lugar constantemente, passar de mão em mão, e quanto mais rápido melhor, porque está é a sua função.
Ignoram os magos do altiplano brasiliense que produção seguida de consumo, em igual intensidade, significa que o cidadão, pela aquisição, está melhorando sua vida e de seus familiares, a saúde, o bem-estar, o ambiente de trabalho e do lar; que ao comprar, aciona o comércio, que de sua vez aciona a fábrica, que aciona as fontes primárias de produção; que todo esse giro mantém o emprego, condição que gera mais dinheiro na mão do trabalhador, para ele gastar mais, e assim se fecha o círculo e a roda gira; que com todos produzindo e consumindo o governo arrecada mais, e assim realiza mais obras, que geram mais empregos, e assim sucessivamente. Um moto-contínuo. É a reação em cadeia, e o resultado é a explosão desenvolvimentista e a felicidade geral.
Consumismo não é pecado. Se fosse, produção seria pecado idêntico. Ambos só podem existir acasalados. Seria como dizer que o homem pode se casar, a mulher não...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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