Gastança, a praga moderna que atrasa o Brasil
“Se o Brasil não acabar com a saúva, a saúva acaba com o Brasil”
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
“Se o Brasil não acabar com a saúva, a saúva acaba com o Brasil”
Samuel Hanan 
No século XIX, o pesquisador francês August Saint-Hilaire (1779-1853) ficou espantado com a ação devastadora das formigas cortadeiras no Brasil, atingindo inclusive árvores frondosas. E aí foi cunhada uma frase: “Se o Brasil não acabar com a saúva, a saúva acaba com o Brasil”.
Já estamos no século XXI e nem o Brasil acabou com a saúva nem a saúva acabou com o País. A profecia não se cumpriu. No entanto, a frase permanece viva e muito utilizada, por vezes como analogia à praga da gastança dos governos das últimas décadas.
Os maus governantes em pouco mais de duas décadas já causaram maiores danos e prejuízos ao País e à maioria da população brasileira do que as saúvas em séculos.
Esses prejuízos podem ser facilmente enumerados porque as ações deletérias trazem as impressões digitais desses governantes reprovados em competência administrativa.
Um deles diz respeito ao gigantismo da máquina pública, inchada não para cumprir sua função de suprir os serviços essenciais à população, mas para acolher os amigos de quem esteve ou está no poder, de seus aliados - muito reprovados pela população nas urnas eleitorais -, e correligionários, apadrinhados com cargos públicos, muitos deles com salários superiores aos dos ministros do STF, teto máximo fixado pela Constituição.
O Legislativo também tem sua parcela de responsabilidade. Basta citar as emendas parlamentares que somaram, em valores pagos, R$ 15,90 bilhões em 2021, R$ 17,02 bilhões em 2022, R$ 21,91 bilhões em 2023 e R$ 24,88 bilhões em 2024. Em apenas quatro anos, foram empenhados R$ 132,94 bilhões e, desses, R$ 79,71 bilhões pagos em apenas quatro anos. As chamadas Emendas Pix viraram sinônimo de repasse de recursos públicos sem transparência, driblando a fiscalização e facilitando gastos ineficientes, improbidades administrativas e corrupção.
Têm também a assinatura dos maus governantes os déficits causados por ações para abrigar aliados. O expressivo rombo das Previdências Sociais (RGPS + Servidores Públicos), com estimados R$ 940 a R$ 950 bilhões em 2024, o correspondente a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Some-se ainda o déficit primário do governo federal, da ordem de R$ 105 a R$ 115 bilhões, e o déficit nominal do governo federal, que soma de R$ 1,093 a R$ 1,120 trilhão, nada menos do que 9,4% a 9,5% do PIB.
A dívida pública chegou ao inacreditável patamar entre R$ 9,10 a R$ 9,20 trilhões, o correspondente a mais de três quartos do PIB (de 77,5% a 78,0%). As consequências disso são catastróficas.
Em maio de 2024, a taxa Selic era de 10,50% ao ano. Em dezembro, fechou em 12,25% ao ano, ou seja, aumento de 1,75 ponto percentual em sete meses. Com isso, em 2025 os juros adicionais da dívida pública brasileira chegarão a R$ 161 bilhões por ano se a taxa Selic for mantida em 12,25%.
O cenário mais provável, entretanto, é o de que a taxa média da Selic fique em 13,50%, o que significa que os juros adicionais em 2025 chegarão a R$ 230 bilhões por ano. Um cenário ainda pior que o de 2024, em que o País pagou em juros do setor público de R$ 950 bilhões a R$ 1 trilhão, o correspondente a 8,5% do PIB.
Os números oficiais mostram o tamanho da gastança do governo federal em 2024. Será de R$ 5,4 a R$ 5,5 trilhões, o equivalente a 45,8% do PIB, na primeira hipótese, ou a 46,5% do PIB, na segunda situação. É mais do que o dobro de toda a arrecadação tributária federal, que fechará 2024 somando R$ 2,2 trilhões.
Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças; é empresário e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002)


