Garrincha e a camisa do Londrina
Olha aí, moçada, vão com calma que tem quatro meses que eu não vejo bola. Feliz Natal para todos, disse o anjo de pernas tortas, também conhecido como Mané Garrincha, ao entrar em campo com a camisa do Londrina, de Planaltina-DF, para disputar a última partida de futebol de sua atribulada vida. Foi no dia 25 de dezembro de 1982, exatos 26 dias antes de sua morte, no dia 20 de janeiro de 1983. Mas este não foi o único episódio da história deste verdadeiro gênio da raça brasileira em que o nome ou a cidade de Londrina estivesse presente.
De acordo com o jornalista e escritor Ruy Castro, autor de Estrela Solitária - Um brasileiro chamado Garrincha, biografia de Manuel dos Santos, atleta nascido em Pau Grande (RJ) e descoberto pelo planeta bola na Copa do Mundo da Suécia, em 1958, ao desmoralizar o, até então, temido futebol científico da ex-União Soviética, desfilou sua arte na antiga capital mundial do café em duas oportunidades. A primeira foi no dia 2 de junho de 1957 - Londrina 1 a 1 Botafogo -, o que deu aos londrinenses a chance de conhecer Garrincha antes que o mundo o descobrisse.
A segunda passagem registrada por Castro foi no dia 30 de agosto de 1961 - Londrina 1 a 8 Botafogo. Neste jogo Garrincha pintou e bordou em campo e marcou três gols com a camisa alvinegra. Como era de praxe nas andanças do jogador, em Londrina, o Mané de Pau Grande também teria exercitado o que mais gostava de fazer na vida além de tomar cachaça e jogar futebol, ou seja, pelo menos uma londrinense teria experimentado o internacionalmente conhecido e celebrado apetite sexual de Garrincha.
Quem conta esta história é o jornalista, escritor e técnico de futebol, João Saldanha, também falecido. Em seu livro Futebol & outras histórias, editado em 1988 pela MPM, Saldanha, o mesmo que montou a Seleção Brasileira tri-campeã no México, em 1970, relata que ao retornar a Londrina em outra ocasião, como comentarista esportivo, a mãe de uma londrinense o procurou com uma criança no colo e afirmou que o rebento fora gerado em uma relação sexual de sua filha com o endiabrado ponta-direita do Botafogo e da seleção canarinho.
Nada se sabe a respeito de tal criança, que hoje, se ainda viver, deve estar na casa dos 40 anos, pois a biografia de Mané Garrincha não registra este episódio. Nem sequer se sabe se a criança era menino ou menina nem é o caso de se especular sobre o tema. Mas o que os apreciadores do falecido, velado e enterrado futebol arte sabem é que, fosse na seleção brasileira ou no Botafogo, a presença de Garrincha em campo, sóbrio ou com umas doses a mais na cabeça, a bola tinha endereço certo quando chegava aos pés do craque - o gol adversário.
Hoje, quando se comemora o dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, cidade que teve o privilégio de assistir aos melhores anos da carreira de Garrincha e, depois, amargou o sofrimento de ver o ídolo sendo abatido, dia após dia, pelos problemas financeiros, afetivos e, principalmente, etílicos, pouca gente se lembrará que 19 anos atrás o anjo de pernas tortas perdeu, definitivamente, o jogo da vida por conta da degeneração múltipla de órgãos - cérebro, coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino delgado e rins.
Morreu solitário e pobre na Clínica Doutor Eiras, no Rio de Janeiro, na madrugada do dia 20 de janeiro de 1983. Justo ele que mobilizava multidões nos campos em que desfilava a arte futebolística em seu estado mais puro, sem contar as centenas - talvez milhares - de mulheres que compartilharam o seu leito, mais os 14 filhos - 11 meninas e três meninos reconhecidos de quatro relacionamentos -, morreu sem que alguém lhe fizesse companhia no momento em que o juiz do jogo da vida trilou o apito final.
Morto aos 49 anos, Garrincha não chegou a ver o tetra-campeonato sem sal e sem açúcar conquistado pelo Brasil nos EUA, em 1994. Mas os amantes do verdadeiro futebol brasileiro, por certo, se lembrarão para sempre da Copa do Mundo do Chile, em 1962, quando o Rei Pelé, contundido, não pôde atuar, e o mais brasileiro de todos os que já vestiram a amarelinha, o índio Mané Garrincha assumiu a tarefa, garantiu o bicampeonato e conquistou o respeito que até hoje o mundo tem pelo nosso futebol.
Quem quiser saber um pouco mais sobre a vida e a obra do gênio, pode fazê-lo lendo Estrela Solitária. Pode ser uma boa chance de conhecer, de quebra, um pouco da alma deste povo resultante da união de três raças tristes - o brasileiro. Viva Mané Garrincha, ainda que seja apenas na memória dos que ainda ousam acreditar que o futebol vai um pouco além da troca de botinadas que hoje se vê pelos campos do Brasil e do mundo afora.
MARIO FRAGOSO é jornalista em Londrina





