O projeto Justiça nos Bairros, que possibilita o acesso de famílias carentes à Justiça, foi idealizado pela juíza Joeci Machado Camargo, da 4 Vara de Família de Curitiba, e em quatro anos já realizou 8 mil audiências. A primeira foi feita dia 29 de março de 2003, no bairro Sítio Cercado em Curitiba. ''Foi um presente meu para a cidade, já que é o dia do aniversário de Curitiba.'' Hoje são realizados dois Justiça nos Bairros por mês em todas as regiões do Estado. ''Temos inúmeras pessoas vivendo irregularmente, pessoas que se casaram muito cedo e depois acabaram se separando, constituíram novas famílias, têm filhos e continuam irregularmente. Os próprios filhos cobram isso dos seus pais, então o projeto Justiça nos Bairros é para atender essa população.''

Os conceitos de Justiça nos bairros pressupõem que a população terá acesso à Justiça. Como surgiu a idéia?
Na grande procura da população por um serviço mais rápido, a população que vive na periferia que não tem condições de vir até o centro para buscar ajuda, seja no núcleo de prática jurídica, seja em uma defensoria pública, que só existe em Curitiba. Esses serviços, que deveriam estar ao alcance da população, na realidade atendem um pedaço das famílias carentes, somente as que conseguem ter tempo durante a semana e dinheiro para a passagem de ônibus. O Justiça nos Bairros é um programa completo. Alimentamos o sonho e, para que a gente possa concluir esse sonho, promovemos o casamento, atividade que fecha a programação. As pessoas que estão aptas a se casar fazem inscrição nos cartórios do registro civil, que são grandes parceiros, e o casamento coletivo encerra as atividades do projeto.

Qual é o perfil das famílias atendidas?
Aquelas que acreditam que o judiciário é a solução para elas, mas que só podem chegar até aqui se tiver um projeto com essa natureza que garanta o acesso, dando inclusive a passagem de ônibus gratuita. Essa é a única oportunidade que essas famílias possuem de ter a garantia da cidadania.

Qual a maior procura da população?
As principais ações são de separação judicial consensual, divórcio direto, reconhecimento e dissolução estável, alimentos, revisional de alimento, reconhecimento de paternidade e maternidade, guarda e responsabilidade, suprimentos de idade para casar e regularização de visitas. Mas o divórcio é o campeão. Porque as pessoas querem regularizar a sua situação para restabelecer a sociedade convivencial com quem estão atualmente.

O projeto é realizado em todo o Paraná?
Sim. Vou onde me convidam, sempre a pedido do juiz da comarca. O Justiça nos Bairros funciona com o Sesc e com Instituto Curitiba de Informática (ICI), que desenvolveu os recursos necessários na área de informática para a realização das audiências e faz toda a parte de logística e infra-estrutura do projeto. O Sesc organiza o evento. Tudo é garantido pela Federação do Comércio. Em Curitiba conseguimos absorver toda a cidade e a região da Grande Curitiba. Hoje nós temos pólos avançados de conciliação em várias universidades e faculdades de Direito e na promotoria das comunidades, que funcionam como Justiça nos Bairros, todos ligados por um sistema de internet. Eu homologo todas as audiências que estão acontecendo nos bairros de Curitiba pelo Fórum, simultaneamente.

Como é esse contato do público com o judiciário?
As pessoas têm uma convivência mais próxima com os integrantes do judiciário, isso é importante. O poder judiciário não é frio, é afável, simpático, querido, só que os juízes, por causa do número de audiências, ficam no fórum, não têm condições de sair para conversar com a população. No Justiça nos Bairros a população tem um contato direto com o juiz, então daí existe a simpatia, a aproximação de todos, criou uma humanização do judiciário extraordinária.

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