Qual empresário não gostaria de ter um funcionário inteligente, dedicado e afável com clientes e colegas de trabalho? Além de ser lei, a inclusão de portadores de necessidades especiais nas empresas é também uma questão de cidadania, pois dá oportunidade a eles de mostrarem potencial. Tanto que os portadores da Síndrome de Down estão, aos poucos, conquistando os empresários.

Em Londrina, a APS Down, uma instituição de apoio a crianças portadoras da Síndrome que também dá orientação aos pais, começa a preparar os jovens para o mercado de trabalho. Segundo Ana Cássia Jorge Cestari, diretora pedagógica da APS Down, a meta é oferecer oportunidades para que os portadores tenham condições de igualdade e se sintam úteis e independentes para exercer seu trabalho.

Como funciona o trabalho da APS Down?
O foco da APS Down sempre foi a inserção no ensino regular. Mas as crianças foram crescendo e começamos a nos preocupar com a qualificação e a inserção no mercado de trabalho. Junto com tudo isso, veio a lei de cotas que as empresas têm que cumprir. E a procura é muito grande, porque a pessoa com Síndrome de Down tem características que as empresas buscam, um perfil dinâmico. Cabe a nós preparar essas pessoas com habilidades sociais e ocupacionais para que elas sejam inseridas.

A preparação é diferenciada?
Trabalhamos o lado acadêmico, mas também preparamos para atividades de vida autônoma. Eles vão para a cozinha, preparam lanches, comida, vendem esses lanches, trabalham também com artesanato, confecção de bijuteria. Na verdade, há um trabalho todo voltado para pré-profissionalização, com utilidades profissionais, mas o nosso foco é que eles tenham hábitos de trabalho, como resistência à fadiga, paciência, concentração, respeito à chefia, comportamentos sociais como ''dá licença, por favor'', aceitar orientação, aceitar supervisão e ser dinâmico, porque hoje o mercado pede isso.

Quantas empresas já demonstraram interesse?
Uma empresa de transporte coletivo, uma de alimentação e uma rede de supermercados. Outros contatos já foram feitos. São empresas que têm que cumprir uma cota e têm a filosofia também da inclusão no mercado. Isso é responsabilidade social.

Os jovens são treinados para uma empresa específica?
Não. São duas turmas com idade para o preparo da educação profissional, a partir dos 14 anos. Essas duas turmas passam por todas as etapas: jardinagem, como fazer identidade, carteira de trabalho, contato com profissões para que eles conheçam o que faz um pedreiro, um padeiro, uma professora. Eles fazem estágio dentro da própria escola, na secretaria, tirando xerox, auxiliando a telefonista, que também é uma forma de se qualificar.

Como será o trabalho nas empresas que demonstraram interesse?
Na empresa de alimentação, seria o trabalho nos restaurantes, repondo alimentos, limpando as mesas, auxiliando os demais funcionários. Na empresa de transporte seria no almoxarifado, levando e trazendo documentos, tirando fotocópia. No mercado são serviços gerais de limpeza e empacotamento.

Quando eles começam a trabalhar nessas empresas?
Acredito que até o final do mês estejam contratados. Os nossos terapeutas e a parte pedagógica vão até a empresa para treinar os alunos também. Se eles apresentarem dificuldade em alguma tarefa, aqui na escola damos o acompanhamento. Ele não é desligado imediatamente após a contratação. É treinado pela equipe da empresa e a nossa equipe continua acompanhando, fazendo uma assessoria. Nosso objetivo é que eles fiquem lá não porque a empresa tem que cumprir a cota e sim porque produzem. Queremos que eles estejam incluídos com seus direitos, não com privilégios.

Mudou a postura da família em relação aos portadores da Síndrome?
A instituição faz um trabalho, através de palestras, para que as mães, desde que entram com seus bebês, tenham a consciência de que eles vão se desenvolver, que são capazes. Mas para isso é preciso estimular, deixar que eles convivam para que no futuro, enquanto jovens e adolescentes, tenham uma condição de igualdade, de independência, e se sintam úteis. Os nossos bebês também vão para o centro de atendimento de educação infantil, as creches. E vão para as escolinhas, para que tenham contato com outras crianças desde pequenos. Mas não adianta desde pequeno a gente fazer inclusão se quando chega aos 16 anos ele volta para casa e fica assistindo TV. A gente quer que haja uma continuidade, que ele esteja no nosso meio, de forma independente, útil. Esse é o nosso objetivo.

As empresas aceitam bem esses funcionários?
Sempre foram muito bem aceitos, a experiência com os empresários é muito boa, eles se surpreendem com o potencial. Nós sabemos que a sociedade vai cobrar mais dele do que do outro, então já vamos preparados.

mockup