Ganhamos todos na eleição mexicana
Carlos Fuentes
Vitória de Ernesto Zedillo. O presidente mexicano assegurou que o voto fosse limpo e os resultados, ainda que uma derrota para seu próprio partido, respeitados. Zedillo passará à história como o presidente que confirmou a era da democracia no México e consolidou a transição que se fazia possível. Nós, os cidadãos, devemos agradecer a Zedillo por sua conduta e protegê-lo do apetite de um Partido Revolucionário Institucional (PRI) amargo e vingativo.
Vitória do Instituto Federal Eleitoral. Com pontualidade e rigor, respeitou e fez respeitar as leis eleitorais. Graças ao Instituto Federal Eleitoral (IFE), a violência foi evitada na disputa e se assegura – até agora – uma transição pacífica.
Vitória de Cuauhtémoc Cárdenas por não se render à sedução do triunfo, mantendo, em troca, uma espaço próprio para a esquerda, sem o qual, em circunstâncias sempre instáveis, a direita pode acreditar que obteve. Cárdenas sustentou uma identidade e, em consequência, um território para a esquerda renovada que o México requer. A vitória de Andrés Manuel López Obrador no Distrito Federal dá à esquerda uma oportunidade imediata de medir-se tanto contra o PRI derrotado como contra o Partido de Ação Nacional (PAN) triunfante.
Vitória de Vicente Fox e de seu empenho frente a desafios que um dia pareciam insuperáveis. Vitória de Fox sobre as sombras e suspeitas que lhe acompanharam e que o presidente eleito tratou de dissipar no discurso de sua noite triunfal. Creio que todos nós mexicanos aceitamos sua mensagem de conciliação e abertura. Creio, também, que devemos nos manter alertas para que as velhas tendências clericais, homofóbicas, moralistas e misóginas do PAN não ressurjam, sentindo-se autorizadas pela vitória.
Vitória da democracia na medida em que o voto se manifestou livre e abundante. Cabe, agora, completar o quadro do triunfo da oposição na relação da presidência com as novas oposições – O PRI e o Partido da Revolução Democrática (PRD) – nas legislaturas. Fox necessita de Câmaras pluralistas e combativas para que a transição não se perca, revertendo o modelo histórico – quase a lei de gravidade – do autoritarismo mexicano. O chamado de Fox à tolerância e ao diálogo não exclui, pelo contrário, reclama, o mesmo que o priísmo demorou tanto tempo a aceitar: crítica, adversidade, liberdade e pluralidade de opinião.
Vitória de todos. Pela primeira vez desde 1911, a oposição ganha as eleições em comícios livres e com credibilidade. Um feito histórico. Confirmá-lo exige da cidadania mais vigilância que nunca para que as práticas políticas correspondam à vontade democrática.
Vitória de Francisco Labastida no paradoxal fato de que sua derrota obriga o PRI a passar à oposição e examinar-se como formação política viável no entorno democrático. Se um PRI ressentido e vingativo recorre à sua inegável presença nacional para frustrar o exercício normal da presidência foxista, haverá cavado sua tumba definitiva. Em troca, se os elementos democráticos e renovadores do PRI aproveitam a derrota para despedir os dinossauros, redescobrem o capital e as dinâmicas – políticas, sociais, defensa da nação, impulso à cultura – que lhe deram legitimidade até 1960.
Vitória de duas tendências opostas e agora convergentes na história do México: a tradição da mudança e a tradição conservadora. Ganhou a eleição a maioria de votantes que estava farta dos 71 anos do PRI. Porém ganhou com as bandeiras da tradição conservadora. Quanto durará o matrimônio? Faz quase vinte anos previ – bem, imagine? – um presidente do PAN na minha novela ‘‘Cristóbal Nonato’’. Nela, o presidente panista tinha que governar com a burocracia priísta. Tinha que suportar, ainda, a carga de búfalos priístas cuja lealdade, instintiva e considerada, é sempre para o presidente do turno. E tinha, por último, que dar a cara para os problemas duros e constantes do México: pobreza, explosão demográfica, saúde, educação, direitos humanos, ecologia, corrupção, minorias...
Vitória do México se a nova Administração, a partir de 1º de dezembro, der mostras claras de que quer, sabe e pode resolver de maneira criativa e firme estes problemas. Foi o que fez Roosevelt com o Novo Tratado Norte-Americano nos seus primeiros cem dias. Foi o que fez Lázaro Cárdenas entre 1936 e 1940. Oxalá também o faça Vicente Fox, a quem mando meus votos de êxito e felicitações por seu indiscutível triunfo.
- CARLOS FUENTES é escritor mexicano (artigo transcrito do jornal ‘‘El País’’ do México de ontem)

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