No nosso ordenamento legal, a pena mais grave a ser imposta a uma pessoa é a prisão. O limite é de 30 anos, por pior que seja o crime. Parando para pensar, a pena é forte. Pessoalmente, acho que preferiria a morte a passar 30 anos numa cela onde não se vive, apenas sobrevive. Agora, imagine que sem ter cometido erro nenhum você já nasce condenado à prisão perpétua. Esse é o caso das aves que vivem em gaiolas. Porém, se viver enjaulado é ruim para nós, é muito pior para elas, pois nós exploramos o mundo em apenas duas dimensões, enquanto as aves, assim como os peixes, exploram em três.

Assim, o espaço de uma gaiola é ainda menor para os bichos. Para eles deve ser o caos. Quem cria aves em gaiola não gosta do bicho, cria para satisfazer alguma necessidade pessoal e é certo que nunca pensou no bem-estar do animal. Ao "criador" (ou, melhor dizendo, carcereiro) eu sugiro um exercício: coloque-se no lugar do bicho e avalie se dá para ser feliz assim.

O projeto de lei que autoriza a criação de aves nativas assombra também por algumas colocações e pela ideia. Por exemplo, ao considerar o "uso da fauna", o que indica o mero viés patrimonial e utilitarista das outras formas de vida (acrescento todas as outras espécies do mundo ao belo texto da coluna "A cidade futura" do dia 13/12/2018). E embora pareça indicar um esforço em salvar as espécies da nossa fauna, indica que continuaremos destruindo e reduzindo o respectivo habitat. Algo do tipo: podem cortar as florestas, daremos um jeito de manter os bichos vivos. E ainda criaremos oportunidade para um pessoal tirar um troco.

A reposição de animais na natureza é bem vinda, mas é muita maldade em relação aos que serão condenados a viverem encarcerados. Também não adianta liberar na natureza se as aves não possuem habitat que as sustente. No nosso estado sobrou cerca de 10% de florestas nativas. Se o objetivo é preservar, o foco deve ser a restauração, o reflorestamento com nossa flora nativa. Gaiolas, zoológicos, isso tudo deveria ser banido. Criação em cativeiro somente de animais mutilados, que não podem mais ser soltos na natureza, como nos casos de atropelamento, por exemplo. Vivemos um vazio ético, uma eugenia comparável ao nazismo. E é geral. É assustador.

Thiago Ilnicki Nogueira de Azevedo, servidor público em Londrina

? Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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