Em um futuro não muito distante, não haverá mais fronteiras entre os mundos real e digital e a internet estará tão disponível quanto o ar que respiramos. A análise é do especialista em mídia interativa René de Paula Junior, da Microsoft.

Ele faz parte de uma equipe na empresa que tenta prever o futuro em termos de tecnologia. O trabalho consiste em compartilhar com estudantes e profissionais da web as novas tendências de interatividade, inovações e conceitos que ''humanizem'' tais tecnologias.

A humanização, aliás, é um conceito bastante valorizado por quem trabalha com tecnologia digital de ponta. De Paula, no entanto, adverte que ''a tecnologia mais promissora e mais desafiadora sempre são pessoas.'' Para ele, o importante é tornar a vida das pessoas mais relevante, mais humana. Eis a entrevista:

Como é, na prática, esse exercício de estudar o futuro?
Temos um trabalho bastante consistente na área de pesquisa. No ano passado a gente investiu US$ 8 bilhões. E mesmo com essa crise maluca, essas mudanças todas, ao invés de reduzir, aumentou o investimento em pesquisa. O fruto disso é uma série de inovações. E mais importante do que isso, é que o pessoal de pesquisa só consegue trabalhar porque eles fazem exercícios contínuos de projeção de futuro. Como será o futuro daqui a cinco anos, daqui a dez anos? Como é que a gente se prepara para isso? E quando chegam a alguma conclusão, eles normalmente preparam alguma amostra disso, fazem um vídeo de como será a vida daqui a dez anos, a tecnologia em 2019. Isso é muito bacana.

E quais são as novas tendências em termos de interatividade?
Hoje, por exemplo, se você quiser acessar qualquer coisa digital vai ter que ligar um computador, um laptop, ou mesmo um celular, vai ter que se conectar, vai ter que acessar isso. Tem um momento. Você sai da sua vida normal e fica diante de um aparelho específico. O que a gente está vendo é que no futuro essa fronteira vai desaparecer. Você estará rodeado de interfaces e coisas interativas. Essa fronteira do digital e do não digital vai desaparecer. A internet estará em toda parte como o ar que a gente respira. Vai ser internet na veia mesmo.

Hoje se fala em mundo real e mundo virtual. Isso então deixa de existir?
Tem muita gente que aposta nesses ambientes virtuais. Mas eu acho o seguinte: a tecnologia mais promissora e mais desafiadora sempre são pessoas, como você torna a vida das pessoas mais relevante, mais humana. Ninguém quer ser um robô. Eu quero viver a minha vida do jeito que eu quero. O que a gente imagina é o seguinte: você vai continuar morando em uma casa gostosa, vai querer ver as notícias de manhã na sua poltrona, vai continuar tendo um corpo de verdade etc e tal, mas a maneira como a tecnologia vai chegar até você, vai ser mais humana. É nisso que a gente acredita: a tecnologia se humanizando e não a gente se robotizando.

Portanto, a tecnologia não vai substituir o relacionamento interpessoal...
Esse é um ponto interessante. Tenho muito claro para mim que a tecnologia não tem sentido por si só. Quem dá sentido à tecnologia é a gente. Se você defronta com uma tecnologia que não consegue dar sentido nenhum, você não adota. Quando você se depara com uma tecnologia nova, seja o que for, twitter, blog etc e tal, se você conseguir agregar aquilo na sua vida, se aquilo tornar você uma pessoa mais humana, mais digna, mais bem informada, mais apta, você vai adotar. O que eu digo é que cada vez mais o fator decisivo para uma tecnologia dar certo não é tecnológico, é um fator humano. A nossa tecnologia torna as pessoas melhores ou não? Torna a minha vida melhor ou não? O que vai fazer diferença cada vez mais é o domínio desse lado humano da tecnologia.

Nesta perspectiva, a Microsoft fala hoje em experiências úteis, memoráveis e transformadoras. Isto representa uma mudança de conceitos?
A gente vive hoje em uma sociedade de abundância. É lógico que existem lugares miseráveis, mas mesmo assim a quantidade de opções que você tem hoje é enlouquecedora. Esse excesso de escolha, que deveria nos tornar mais felizes, não nos torna necessariamente mais felizes. Pode ser um fator de stress. Por isso que eu digo que o segredo hoje não é fazer uma tecnologia genial, é fazer uma tecnologia que seja realmente relevante, que faça diferença, que seja transformadora porque se não for vai ser só mais uma.

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