Futuro róseo da
mundialização
Fernando José Dias da Silva
Uma mulher. Isso mesmo, uma mulher seria o personagem padrão. Nem bonita nem feia, nem alta nem baixa. Loura, morena, japonesa, negra ou branca. Apenas, uma mulher. Mas uma resistente. Seria ela a figura símbolo para representar toda uma faixa da população da Grande São Paulo.
E que as feministas não comecem a sorrir porque se trata de assunto grave. A mulher seria o protótipo porque não existiriam mais homens. Eles estariam morrendo pelas ruas, ficando no meio do caminho. Teriam suas vidas interrompidas pela violência, pela criminalidade. Esmagados atrás de um volante num desastre automobilístico ou com um tiro na boca que partiu da arma de um assaltante ou de alguém ligado ao tráfico de drogas.
Isto não é ficção, muito menos uma guerra civil anunciada e assinalada com lápis de cor no calendário gregoriano. É apenas uma constatação de quem tem como hábito mexer com dados. O economista Pedro Paulo Martoni Branco, da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) de São Paulo, diz que nascem mais homens. Mas as mulheres já são em maior quantidade na faixa dos 20 anos. Motivo: a violência que vem abatendo vidas humanas em níveis industriais globalizados. Principalmente homens.
Martone tem motivos mais do que justificados para sofrer de gastrite e dormir mal à noite. Os dados com que ele trabalha não estimulam ninguém a ficar pulando de alegria. Principalmente porque eles derrubam certos dogmas que eram aceitos e difundidos com inegável satisfação pelos defensores do chamado futuro róseo da mundialização.
O economista afirma que maior escolarização e maior qualificação profissional não servem mais para o sujeito conseguir um belo posto e um salário razoável. A qualificação está servindo de funil para empregos de baixa necessidade de desempenho: aqueles que empregam têm a possibilidade de exigir trabalhadores muito mais qualificados do que o próprio posto exige. Ou seja, você está contratando gente até com nível universitário para empregos nos quais bastaria ter o 1º grau completo. As taxas de desemprego para quem tem faculdade dobraram em dez anos.
É um fato que pode ser interessante porque no sapateiro se poderá ouvir de um aprendiz, saído do curso de Línguas, trechos belíssimos da ‘‘Divina Comédia’’, talvez até no italiano original. Do motoboy diplomado em Física pela USP, que entrega pizzas em casa, reclamações sobre a falta de atrito do seu pneu no asfalto esburacado o que provoca a exacerbação da força centrífuga, resultando no perigo de quedas constantes.
Toda essa situação poderia ser divertida se acontecesse com os outros. Mas não é mais assim. O desemprego já entrou na casa de todo mundo, sem ao menos bater na porta. E segundo Paulo Martone, desestrutura a família, principalmente quando ele persiste por muito tempo. No ano passado, havia 441 mil chefes de família desempregados na Grande São Paulo. Dez anos atrás, em 1988, eram menos de 140 mil. ‘‘É uma mácula muito difícil de ser superada por um pai e que empurra outros membros da família, principalmente filhos jovens e adolescentes, a procurar trabalho quando deveriam estar elevando a sua escolarização. Com isso há uma forte evasão escolar e os empregos obtidos são de menor remuneração o que compromete a própria estratégia de sobrevivência da família’’, explica o chefe do Seade.
Essa desestruturação da família, a miséria, a pobreza, logicamente são fatores, entre outros, do crescimento da criminalidade. E aí se fecha o ciclo. As mulheres também saem para o mercado de trabalho. Elas assumem cada vez mais o lugar que era dos homens até como chefes de família. Uma em quatro famílias na Grande São Paulo é chefiada por mulheres. Daí o nosso personagem padrão não usar barba e nem se chamar João, mas ter gestos mais delicados e se chamar Maria – Mãe Coragem.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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