Falta de perspectiva, de sonho, e até mesmo de vontade de fazer alguma coisa em benefício próprio, aliada à evasão escolar e uso de drogas. Esse é o perfil da maioria dos adolescentes que vão para o Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) em Londrina cumprir penas sócio-educativas por delitos praticados. No ano passado, dos 376 adolescentes que ficaram apreendidos no Ciaadi, 306 estavam fora da escola e 212 faziam uso de drogas (outros 44 afirmaram que já tinham entrado em contato com entorpecentes).
Desde a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, a Lei passou a vigorar no sentido de integrar esses meninos e meninas atores de atos infracionais à sociedade, dando atendimento especializado. E é essa a intenção do Ciaadi, segundo o diretor Márcio Filla. ''Buscamos trazer a família para a realidade desse menino e propor mudança'', aponta.
Para isso, o Ciaadi presta atendimento educacional, psicológico e médico, além de realizar atividades recreativas e religiosas com os adolescentes apreendidos. O custo para a recuperação é alto, chega a R$ 2,4 mil por adolescente ao mês.
Mas Filla garante que cada esforço, e até mesmo dinheiro empregado, é válido quando se vê o adolescente fora do crime. Defensor do ECA, o diretor aposta no resgate da dignidade desses meninos para que eles possam se recuperar. ''Estamos na busca disso, mas a própria vivência deles dificulta o trabalho'', declara.
Conversando com os adolescentes, é fácil perceber que a vontade de ter dinheiro é o que os impulsiona para o crime. Alguns se arrependem, outros sequer pensam em melhorar. Esse é o caso de André (nome fictício), de 13 anos, que foi para o Ciaadi por ter agredido um educador. Mas ele revela que já cometeu outros delitos. ''Já roubei mas nunca tinha caído aqui (ido apreendido para o Ciaadi)'', fala.
A mãe de André morreu quando ele tinha 4 anos. Já sobre o pai, ele conta que não sabe onde está. Durante um tempo, ele viveu com a avó mas depois saiu de casa e hoje vive na rua. ''Moro sozinho'', enfatiza. O motivo que levou André para a rua é o mesmo que o leva a roubar: a droga. Viciado em crack, o menino não quer saber de estudar e mesmo atividades de diversão parecem entediantes. ''Nada me interessa, só a droga'', diz com frieza.
André parou de estudar na 4série simplesmente porque ''não gosta de estudar''. Aliás, ele vai além e fala sem rodeios que não gosta de fazer nada. Quando tem fome, pede comida nas casas. Se o problema é o frio, a solidariedade das pessoas mais uma vez é usada como solução. ''Vou sair daqui e continuar na droga'', finaliza.
Felizmente, o pensamento de André não é unanimidade entre os meninos do Ciaadi. Roberto (nome fictício) tem 17 anos e apesar de ter cometido um ato grave, ele matou outro adolescente, quer continuar a trabalhar como já fazia antes de ir para o Ciaadi. Aliás, Roberto nunca havia cometido um ato infracional antes e justifica que agiu para defender o irmão. ''Meu irmão estava sendo esfaqueado e eu atirei'', explica.
Questionado sobre a arma, o adolescente conta que mora em um pesque-pague e utilizava o revólver para defender o local dos ladrões que entravam para roubar peixe durante a noite. A mudança de cidade acabou atrapalhando os estudos de Roberto, que parou de ir à escola após concluir a 6 série. ''Fui para o Rio de Janeiro e para São Paulo e tive que parar'', diz. Mas ele acrescenta que voltou a estudar no Ciaadi.
Mesmo tendo vontade de ser engenheiro ou técnico em eletrônica, o adolescente não se anima a lutar por esse desejo. ''Falta tudo, até dinheiro. Como vou pagar a faculdade?'', questiona. Na falta de opção, ele afirma que quer ser mecânico como os tios. Antes de ir para o Ciaadi, Roberto trabalhava com pintura automotiva. ''Gostar eu não gosto, mas tem que trabalhar para sobreviver'', fala conformado.
Mas não são só os meninos que ocupam as celas do Ciaadi. Apesar de minoria, também há meninas no local. Camila (nome fictício) é uma delas. Aos 16 anos ela foi apreendida por tráfico de drogas e porte de arma. Como os outros, também não estava frequentando a escola por ''falta de interesse'', segundo ela.
Camila conta que é usuária de maconha e que a droga estava em sua casa quando foi flagrada. ''Era para uso, mas como tinha bastante eu peguei 12 (artigo que caracteriza tráfico de substância entorpecente)'', explica. Sobre as armas, ela aponta que era para se defender. Camila mora com a mãe e o padrasto e fala que quer ''ficar legal'' quando for liberada. ''Esse mundo podre não leva a nada'', argumenta. Ela retomou os estudos no Ciaadi e diz que quer recomeçar. ''Se algum colégio me aceitar, eu volto (a estudar). Foram quatro anos perdidos'', relata.
Para Filla, o caso de meninas infratoras é mais difícil de se trabalhar. ''Quando ela comete um ato infracional é porque já passou por muita violência e fica com muitas feridas. Ela não acredita nas pessoas e a sedução do mundo do crime acaba atraindo'', observa. Apesar de difícil, o diretor aposta em resultados. ''Nossa luta vale a pena porque tivemos muitos que não voltaram para o crime e saíram das drogas. Os meninos não são a causa do problema, mas consequência dele'', conclui.
Foram utilizados nomes fictícios para proteger os adolescentes conforme prevê o Estatuto.

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