Futuro do Iapar: algo novo ou mais do mesmo?
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sábado, 19 de janeiro de 2019
As últimas eleições deram um recado muito claro aos eleitos: enxugar a máquina estatal e torná-la mais eficiente. Nesse sentido os novos gestores tem promovido mudanças acentuadas nesses primeiros dias de governos, com a fusão, ou a extinção, ou a adequação de suas autarquias. Para o agronegócio no Paraná está colocada a fusão do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) com o Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural) e com outras instituições.
O Iapar foi fundado em 1972 e deixou ao longo de seus quase 47 anos um grande legado ao sistema produtivo paranaense e nacional. Pode-se destacar facilmente contribuições na conservação de solo, no plantio direto, em opções de coberturas vegetais, em cultivares de trigo, feijão e café, em fruticultura (incluindo a citricultura) e em várias outras áreas, além da formação de capital humano reconhecido internacionalmente. Mas também enfrenta deficiências crônicas de recursos humanos e materiais, e administrações deficientes.
Não há demérito em fundir o Iapar com a Emater, e vice-versa, pois são duas instituições irmãs que se completam para o desenvolvimento e a sustentabilidade do setor produtivo do estado. Entretanto, são instituições com ações distintas, tamanho e estruturas burocráticas desiguais, e com recursos humanos treinados para objetivos diferentes. O Iapar é um órgão de pesquisa científica, gera informação, cultivares de plantas, raças de animais e novas tecnologias, e a Emater um órgão de extensão rural, responsável por levar todas essas informações para o produtor.
Para entender a importância do Iapar é preciso que a sociedade entenda primeiro para que serve uma organização de pesquisa cientifica no campo. O produtor agropecuário está diariamente exposto a tomadas de decisão que impactam não apenas o seu "roçado" , mas todo o seu entorno. O papel fundamental das organizações de pesquisa é tentar responder antecipadamente questões para que o produtor rural corra menos risco, erre menos, e produza sempre com maior competência. Isso só é possível com investimentos em pesquisa científica: em genética avançada, em biologia molecular, em fisiologia, em bioquímica, em bioinformática, em mecanização, em agricultura de precisão, em eletrônica, em sensoriamento remoto, em tecnologias da informação, em modelagem climática e em várias outras áreas estratégicas do conhecimento. Isso está sendo considerado para o novo modelo de pesquisa para o estado?
Por essas características, os exemplos em outros estados de instituições de pesquisa que foram fundidas com instituições de extensão rural deixaram como legado o desaparecimento da pesquisa cientifica por falta de investimentos, desconhecimento e descaso dos administradores. No estado no Mato Grosso, a fusão da pesquisa científica com a extensão rural no passado gerou em 1992 a Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural). O resultado atual é a quase completa desestruturação da pesquisa científica no estado, que salvo iniciativas heroicas e individuais de colegas competentes, vive hoje da completa importação de tecnologias aplicáveis para o estado. Outro exemplo de ineficiência foi feito em São Paulo, com a criação da Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios) cujo objetivo principal era enxugar a máquina estatal reduzindo os institutos de pesquisa e colocando-os sob uma única administração. Embora o objetivo tenha sido melhorar a eficiência do sistema, o resultado prático atual foi o aumento da burocracia, pois os institutos continuam existindo sob penúria e criou-se mais uma camada administrativa entre os mesmos e o gestor estadual. Exemplos em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul também precisam ser considerados.
Caberá aos novos gestores responderem a essas e outras perguntas do setor produtivo, com uma dimensão clara das competências e das não competências institucionais dentro do novo formato organizacional do estado, zelando não apenas para a não extinção da pesquisa científica agropecuária no Paraná a médio e longo prazos, mas também para o fortalecimento do sistema agropecuário no estado. A sociedade elegeu os atuais gestores e certamente espera que os mesmos tenham o melhor êxito possível. A nós servidores, temos que trabalhar para isso, com grande dedicação e empenho para que o resultado seja o melhor possível.
Eduardo Fermino Carlos,Ph.D., pesquisador cientifico, Laboratório de Biotecnologia, Iapar
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