Após a histórica vitória por 7 a 1 da Alemanha sobre a Seleção Brasileira, na semifinal da Copa do Mundo do Brasil, a opinião unânime é que o futebol pentacampeão precisa mudar. Para alguns, a faxina teria que ocorrer na comissão técnica comandada por Luiz Felipe Scolari (cuja saída foi confirmada no dia seguinte ao fim da Copa) e na cúpula da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para outros, a mudança teria que ser mais profunda, partindo dos clubes e chegando até a formação de jogadores, nas categorias de base.
Fernando Ferreira, diretor da Pluri, empresa de consultoria na área de esportes, faz parte do segundo grupo. Ele acredita que o futebol brasileiro só voltará a ser grande e respeitado quando os clubes locais começarem a ser geridos de forma profissional, nos moldes do rico futebol europeu.
A Pluri foi criada em Curitiba em 2008, e está estabelecida em São Paulo desde o final do ano passado. Seus estudos ganharam repercussão na imprensa nacional, entre eles uma estimativa de que o valor de mercado somado dos 23 jogadores da Seleção sofreu desvalorização de quase R$ 62 milhões após o fiasco diante da Alemanha. Na última segunda-feira, a Pluri publicou um relatório com 12 propostas para transformar o futebol brasileiro. Essa necessidade de mudança foi o tema da entrevista que Ferreira concedeu à FOLHA.

Depois da eliminação da Seleção, muito se falou da necessidade de mudanças no futebol brasileiro. Quais são as mais importantes e por onde devem começar?
As soluções mais visíveis em geral não são a solução do problema como um todo. Primeiro, a discussão sobre o técnico: ele é uma peça da engrenagem. Se essa engrenagem não for boa o suficiente, pode trazer o (Pep) Guardiola (técnico do Bayern de Munique, e que montou o Barcelona campeão de tudo entre 2009 e 2011) que não vai funcionar. Outra coisa: ficar discutindo agora a questão dos centros de treinamento para formação de novos jogadores é um dos elementos de toda a mudança que precisa ser feita. Precisamos mudar a gestão do futebol brasileiro, que não é profissional ainda. Em 1998, perdemos a chance, na época da discussão da Lei Pelé, de permitir ou induzir os clubes a que virassem clubes-empresas. Isso foi discutido na época e no apagar das luzes foi retirado do anteprojeto da lei, e nunca mais voltou a ser discutido esse assunto. Se a gente tivesse tomado essa decisão lá atrás, há 16 anos, a situação do futebol brasileiro hoje seria outra.

E qual é o cenário hoje?
Hoje ainda convivemos com um cenário de dirigentes amadores, não remunerados, apaixonados pelos seus clubes, que não têm conhecimento e efetivamente condições de gerir um clube como se fosse uma empresa. Não uma empresa no sentido de buscar lucro em si, mas de buscar eficiência financeira que permita aumentar a capacidade de investimento. Precisamos gerir e regulamentar o investimento no futebol brasileiro. Enquanto lá fora, na Europa, estão despejando rios de dinheiro nos clubes de futebol, aqui no Brasil todas as tentativas de fazer algum tipo de investimento em um clube de futebol são sempre tratadas de forma populista pelos grupos políticos dentro dos clubes e os investidores sempre se deram mal.

Como promover essa renovação de gestão, se os dirigentes são sempre os mesmos e não têm a menor intenção de mudar ou abrir espaço para novos gestores?
Desde que você deixe claro, e isso pode ser feito no âmbito de uma lei de responsabilidade fiscal, que tem sido discutida, que eles precisam ter uma gestão profissional. Da maneira como você colocou, é a maneira como o sistema está arraigado hoje. Não estou querendo que esses políticos virem os gestores, estou querendo que eles deixem de bancar os gestores. Hoje, o futebol funciona no mesmo modelo político de Brasília, em que você chama o cara do PMDB e coloca no Ministério de Minas e Energia: ele não conhece nada, mas é da base aliada. Outra distorção é a descontinuidade do que vinha sendo feito. O dirigente entra lá, tira todo mundo e monta a sua equipe. No Barcelona, no Real Madrid, dois clubes que também são clubes sociais, como são os clubes brasileiros, há uma separação clara: eles têm diretoria executiva, e os políticos são políticos, eles trabalham com a área política do clube. Quem toca o clube são executivos profissionais.
Não bastaria então trocar o comando da CBF, como muita gente defende?
O comando da CBF é outro aspecto. Existem alguns mitos, por exemplo, o mito da liga. A liga, se é para ser no molde da Premier League inglesa, da Bundesliga alemã, da MLS americana, estou plenamente de acordo. São ligas independentes, profissionais. O Clube dos 13 (entidade que congrega os principais clubes brasileiros) não é uma liga, é uma associação de clubes em que a única mudança em relação à CBF é que você tira o poder do A e transfere para o B. Acaba sendo gerido da mesma forma que a CBF, com indicação de políticos, por grupos que se dividem na disputa pelo poder, é a mesma coisa. A mudança do estatuto da CBF é uma dessas medidas que precisariam ocorrer, para que haja uma participação maior dos clubes e dos jogadores, que permita uma democratização maior do futebol, mas é apenas uma delas.

As mudanças devem partir exclusivamente das pessoas ligadas ao futebol ou existe algo que o Estado brasileiro possa fazer?
Eu acho que ele pode ser um indutor da regulamentação, mas não ter uma postura intervencionista. O Estado, por exemplo, pode ter um papel importante na relação com o Legislativo no sentido de regular o investimento. Essa é uma necessidade. Essa medida de profissionalizar a gestão dos clubes precisa de uma mudança na legislação, que não puna do ponto de vista tributário os clubes que profissionalizam a gestão, que é o que acontece hoje. Intervenção do Estado, você não pode ter, porque a Fifa não permite. Se tiver, a Fifa faz o que fez com a Nigéria agora (a Fifa suspendeu a seleção africana de competições após a Copa do Mundo porque o governo interveio na federação local). Segundo, eu não sei se é uma grande vantagem ter o Estado metido nisso, porque ele não tem um histórico de fazer as coisas bem feitas. Acho que muito mais eficiente e simples seria criar um centro de governança do futebol ou do esporte. Seria algo nos moldes do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, que se dedicasse à criação de um código de melhores práticas, a que os clubes tenham que aderir e a partir do momento em que façam essa adesão tenham o benefício de empresas que investem no futebol. Aí cabe outro ponto: fair play financeiro dos clubes. Não só administrar os prejuízos, mas limitar o nível de endividamento dos clubes. Porque só obrigá-los a apresentar Certidão Negativa de Débitos (CND) não é suficiente. Eles vão pagar impostos e vão deixar de pagar outras coisas, porque o modelo não profissional, de mandato de dois, três anos, induz o dirigente a não ser responsável do ponto de vista fiscal. Junto com essa medida de fair play financeiro, você tem que criar punições desportivas aos clubes e aos dirigentes que não cumprirem as regras.

Como mexer no calendário do futebol?
O Campeonato Brasileiro tem que ser anualizado, tem que ter o ano inteiro. Estaduais têm que ser divisões do Campeonato Brasileiro, divisões de acesso do campeonato nacional, como são no mundo inteiro. Esses campeonatos têm que ter a participação de todos os times que disputam estaduais, primeira, segunda divisão, qual seja.


Mas de onde viria o dinheiro para isso?
É muito mais barato do que se imagina fazer isso, porque com esses clubes você trabalha em um limite geográfico pequeno. Você não vai fazer o time de Maringá jogar em Manaus. Você trabalha de uma maneira regional. Uma maneira de os clubes subsidiarem isso é o modelo alemão, usar um percentual das cotas de TV para pagar essa conta que permita que os clubes pequenos, que estão desaparecendo, tenham prática de futebol o ano todo. Um dos grandes problemas é eles terem três, quatro meses, e depois não têm mais o que fazer o resto do ano. Cinco por cento dos direitos de transmissão de TV, nós estamos falando de R$ 70 milhões: com esse dinheiro, você coloca todo esse pessoal para jogar. E a partir daí que cada um tenha o mérito, como o Londrina está tendo, de ter um trabalho bem feito para ascender na hierarquia do futebol nacional. Agora, quem não faz um trabalho bem feito não tem que ser resgatado por ninguém. Outros pontos: redistribuição das cotas de TV, com regras claras, e orientar o futebol brasileiro para que os estádios encham. Futebol é entretenimento, e nada no entretenimento é mais deprimente, mais desvalorizante do que não ter público.

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