Futuro ameaçado - Webster Renê Belchior
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 1997
Webster Renê Belchior 
Alimentação, saúde, escola, moradia digna, orientação e afeto constituem a atenção mínima que uma criança requisita para crescer saudável e exercitar as prerrogativas da cidadania. Infelizmente, grande parte das nações tem tratado a infância com incompreensível displicência. São milhões de crianças abandonadas e/ou carentes, em todo o mundo, cujo futuro já está precocemente escrito pelo descaso das autoridades e da própria sociedade. Esta situação permite prever, sem grande margem de erro, o agravamento, nas próximas décadas, da estratificação econômico-social e o crescimento das parcelas populacionais excluídas. Corre-se sério e iminente risco de que o futuro próximo seja marcado por tensões sociais ainda mais graves do que as existentes hoje em numerosos países.
Há alguns indicadores que atestam a precária condição de vida presente dos adultos da primeira década do Século XXI. Mais de um milhão de menores são obrigadas a se prostituir a cada ano, em todo o mundo. É o que indica o relatório do Unicef. Estima-se que, somente na Índia, haja 500 mil crianças prostituídas. Na Tailândia, o número de menores envolvidos na indústria do sexo já chega a 800 mil. Lamentavelmente, o Brasil não está fora dessas tristes estatísticas. Aqui, ainda segundo o relatório do Unicef, são 500 mil as crianças que vivem na prostituição.
Esse flagelo, porém, não é um estigma apenas do Terceiro Mundo ou das chamadas potências emergentes. Nos Estados Unidos, há 300 mil menores sendo explorados sexualmente, 30 mil deles prostituindo-se nas ruas cosmopolitas de Nova York. No Japão, conforme denunciam dados da própria polícia local, 8% das estudantes, com idade entre 12 e 17 anos, estão se prostituindo para comprar roupas (neste caso específico, é possível aludir que o consumismo exacerbado, inclusive na ausência de problemas sociais graves, pode gerar distorções psicológicas na juventude, exigindo muitos cuidados na educação e orientação por parte das famílias, escolas e veículos de comunicação, que têm grande responsabilidade nesse processo). Na Europa, onde os números são menos cruéis, surgem denúncias que também chocam o mundo, como a descoberta, no final do ano passado, de uma rede de tráfico internacional de menores, cujo núcleo localizava-se na Bélgica.
O mais estarrecedor nessa questão é o fato de haver oportunistas explorando a exclusão social da infância para movimentar uma sórdida indústria, que somente na Tailândia movimenta US$ 1,5 bilhão por ano. O turismo sexual, num fluxo do Primeiro para o Terceiro Mundo, é uma realidade dolorosa, cujos responsáveis sequer se preocupam em esconder. Não se deve, por outro lado, esquecer que a própria existência de um vasto mercado ávido pela prostituição infantil e juvenil denuncia uma deformação moral e psicológica de milhares de adultos que compram favores sexuais de crianças famintas e abandonadas pelos pais, a sociedade e seus países.
Não bastasse esse absurdo, outras centenas de milhares de crianças, em todo o mundo, são expostas indevidamente ao trabalho precoce. Números da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) indicam que 3,5 milhões de crianças brasileiras, menores de 14 anos, exercem atividades insalubres, cumprindo jornada de trabalho superior a 44 horas semanais e recebendo menos do que um salário mínimo. Os canaviais são um dos principais segmentos de exploração indevida de seu trabalho. Em São Paulo, por exemplo, o corte da cana empregaria cerca de 60 mil crianças; em Alagoas, 50 mil, e em Pernambuco, 70 mil.
Menores abandonados e carentes são uma porta aberta - e desprotegida - para o mundo das drogas, dos vícios, da criminalidade e a violência. Estes já são traços marcantes das sociedades contemporâneas. É preciso reverter o destino da presente geração de crianças e adolescentes, pois o abandono a que estão relegados é uma real ameaça ao futuro. O Estado, a família e a escola têm papel fundamental nesse processo. Da mesma forma, é importante o engajamento de todos os que influenciam o comportamento da juventude, como atletas famosos, artistas, compositores, cantores e grupos musicais, que são parâmetros e exemplos para milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo. Trata-se de uma responsabilidade muito grande, da qual ninguém pode mais se omitir.


