FUTURO AMEAÇADO - Câncer mata 10 mil crianças e adolescentes todos os anos
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terça-feira, 01 de setembro de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Todos os anos morrem de câncer no Brasil cerca de dez mil adolescentes e crianças acima de quatro anos, de acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope), Renato Melaragno. Segundo ele, faltam políticas públicas de apoio e também recursos financeiros.
''É muito importante as pessoas saberem que há dez anos não há reajuste na tabela, enquanto os medicamentos aumentam o preço com frequência. O que se ganhava há dez anos se ganha hoje, para fazer um tratamento até mais caro. Temos os núcleos de apoio, mas é muito irregular em cada região do Brasil'', explica ele.
Para Melaragno, essa irregularidade faz com que duas crianças de regiões diferentes do País passem por tratamentos completamente distintos. Confira os principais trechos da entrevista que o médico concedeu à FOLHA.
Já que o dignóstico precoce do câncer é fundamental, por que ainda temos tantas mortes no Brasil?
Porque nem sempre conseguimos fazer o diagnóstico tão precoce quanto nós gostaríamos e também há tipos de câncer que não são possíveis de se fazer o diagnóstico precoce, como as leucemias.
Os recursos destinados ao tratamento das crianças e adolescentes são suficientes?
O Brasil tem condição de tratar muito bem todas as crianças, o problema que esses recursos não estão acessíveis para todas.
Mas os hospitais públicos estão preparados para fazer esses tratamentos?
Não todos. Existem vários hospitais públicos que têm condições de fazer o tratamento adequadamente, mas temos o problema de custo. Nem todos recebem o suficiente para ter tudo que é necessário.
O que precisa ser feito para que os hospitais tenham esse recurso?
É preciso uma uma política governamental que ofereça condições de que esses hospitais se preparem adequadamente, com remuneração adequada, com tudo.
Qual o papel das organizações sociais de apoio?
Elas são muito importantes, estão quase substituindo o Estado como fonte de renda, o que não deveria acontecer. Dependemos muito do que essas organizações arrecadam para cobrir o rombo que o Estado deixa para o hospital resolver.
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) fala de uma rede de oncologia no Brasil. Como seria essa rede?
É uma ideia, não tem nada em andamento ainda. Seria para oferecer serviços mais gabaritados, para podermos fazer atendimentos mais caros e mais complexos, trabalhando em parcerias com serviços menores, de modo que todos tivessem atendimento nos mais diversos níveis. Seria um jeito de otimizar os recursos e dar um bom tratamento a todos.
Essa rede envolveria órgãos públicos e privados também?
Seriam públicos e privados que atendem pelo SUS, os filantrópicos e os do governo.
Crianças e adolescentes são prioridade pelo Estatudo da Criança e do Adolescente (ECA). Por que crianças estão morrendo por falta de recursos?
Isso precisa ser perguntado para o governo. Especificamente ao que diz respeito à criança com câncer, está longe de ser prioritário. Inclusive dentro do Ministério da Saúde, na pasta de criança e do adolescente, mal se encontra a citação do câncer pediátrico. Ele fica muito mais na alçada da oncologia de adultos do que da saúde da criança e do adolescente, o que é um erro brutal.
O que é a emenda 29 e qual sua importância?
A emenda 29 ainda está em andamento, não entrou em vigência. Ela define qual o nível que cada município, cada estado deve gastar com saúde. Isso em geral, não específico com câncer. E o governo alega que enquanto isso não for aprovado, não tem dinheiro.
Outra promessa é a nova CPMF, cuja proposta defende que o recurso vai ser destinado 100% para a saúde...
Exatamente. Sem entrar no mérito da moralidade de um imposto a mais. Resta sabermos também se isso vai mesmo para a saúde ou não. Depois que aparece o dinheiro, ele vai para construir esgoto. Isso também é saúde, mas não é para aplicar diretamente para a saúde, para os tratamentos. No final é uma coisa muito ampla, a saúde não recebe e a oncologia menos ainda.


