Futebol, tragédias e paixões
O acidente aéreo que vitimou jogadores, comissão técnica e dirigentes da Chapecoense (SC)
na madrugada dessa terça-feira (29) é uma tragédia. Dezenas de vidas abruptamente ceifadas, a maioria com grande potencial de desenvolvimento e realização profissional quase garantida e a equipe em seu auge rumo a um título que lhe era inédito. A popularidade do futebol torna a repercussão dos fatos imediata e profunda.
Desde o seu estabelecimento como esporte moderno, com regras claras e simples, o futebol conquistou praticantes e admiradores. Era na equipe da indústria ou da ferrovia que as pessoas buscavam sua identidade de grupo. Os "Botafogos", "Ferroviários", "Operários", "Arsenals", "Dínamos", etc., são exemplos dessa fase. A seleções nacionais passaram a representar não apenas a habilidade de seus times, mas também a grandeza material e cultural dos seus países. Disseram alguns que também legitimavam governos, regimes políticos e ideologias, conforme o uso que se quisesse fazer delas.
O futebol profissionalizou-se e transformou-se em um negócio e tem como suas principais fontes de renda nos direitos de transmissão das imagens dos jogos; venda dos direitos sobre jogadores entre as equipes e o marketing esportivo. Quanto mais se destaca nos campeonatos, mais valor se agrega à equipe, aos jogadores e à marca do clube. A revolução dos transportes aéreos diminuiu as distâncias, aproximou os campeonatos, o futebol profissional de fato e de direito tomou conta do mundo. As viagens internacionais e os seus riscos adjacentes, apesar de sua eventualidade, deram ao futebol e seus espectadores alguns momentos fatídicos que marcaram e traumatizaram.
A seleção da Itália conquistou as copas de 1934 (à qual sediou) e 1938 (França). Em ambas o ditador Benito Mussolini pôde usar os resultados como propaganda do seu regime, o fascismo, como preparador de homens superiores, a exemplo de seu congênere Adolf Hitler com os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936. Consta que a Alemanha disputou com o Brasil privilégio de sediar a edição de 1942 da Copa do Mundo de Futebol, mas a pressão nazista foi tão grande que mesmo com o início da Segunda Guerra Mundial, a Fifa em 1940 ainda não havia se decidido a respeito do anfitrião do evento. Em 1946, não haviam condições organizacionais e materiais para a disputa e a Copa do Mundo seria disputada em 1950 no Brasil.
Em 1949, os italianos estavam classificados para a disputa no Brasil, em uma época quando times serviam de base às seleções de futebol de seus países ou mesmo as representavam. A Itália firmava a sua "Azurra" no Torino. Eis que em 4 de maio de 1949 o avião que transportava a equipe, retornando de uma partida em Lisboa, chocou-se contra a Basílica de Superga, em Turim. Todas as 31 pessoas a bordo morreram, inclusive os 18 jogadores do Torino, no primeiro grande acidente aéreo envolvendo personagens ligados ao esporte. A base da seleção italiana estava desfeita, o episódio foi bastante traumático para toda a Itália.
O futebol, cujas disputas fazem rivalizar as pessoas e os países, em suas tragédias tem também a capacidade de aglutinar sentimentos e emoções, como reflete a mensagem, no mais perfeito fair play, do mesmo Torino à Chapecoense na manhã desse trágico 29 de novembro de 2016: "É um destino que agora nos une intimamente, estamos com vocês fraternalmente".
No ano seguinte, com novos jogadores a "Azurra" disputou a Copa do Mundo no Brasil, sendo a única seleção que rejeitou o transporte aéreo, optando por vir de navio desde a Europa e desembarcando em Santos. São Paulo e sua colônia italiana receberam e prestigiaram seus jogos. Mais do que uma participação esportiva foi um tributo aos jogadores do Torino, uma demonstração de fair play, que deveria ser a alma desse esporte.
ROBERTO BONDARIK é professor e pesquisador da Universidade Tecnológica Federal do Paraná em Cornélio Procópio
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