Furtado: o viés crítico da Economia
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de novembro de 2004
Francisca Vergínio Soares 
Celso Furtado, 84 anos, morreu no último dia 21, no Rio de Janeiro, vítima de um infarto, deixando como referência uma vasta obra acadêmica e uma trajetória de lutas em favor da população menos assistida. Autor de Formação Econômica do Brasil (1959), criou a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), foi ministro do Planejamento no governo João Goulart e da Cultura no governo José Sarney e, no ano passado, teve seu nome indicado ao Prêmio Nobel de Economia. Furtado combateu como pracinha na Itália, na Segunda Guerra Mundial, participou como voluntário no processo de reconstrução da Bósnia no fim dos anos 40, paralelamente aos estudos sobre Direito e Economia.
Doutorou-se na Universidade de Paris, mas com uma tese sobre os meandros do Brasil-Colônia. Trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e lecionou em universidades como Yale (EUA), Sourbonne (França), Cambridge (Reino Unido) e Columbia (EUA), voltando ao Brasil de tempos em tempos. Retornando do exílio, depois de cassado pela ditadura militar, militou no MDB e participou ativamente da campanha pela redemocratização do país nos anos 80, consolidando-se como referência maior do pensamento econômico da esquerda brasileira. Participou ativamente do processo de transição democrática do Brasil tendo se envolvido com a campanha de Lula à Presidência da República, em 2002, mas nos últimos tempos mostrava-se decepcionado com os rumos do governo petista. Num seminário na Universidade Federal do Rio de Janeiro em maio último, ele não compareceu, mas expressou seu desencanto numa carta lida pelo filho André em que criticava a política de arrocho fiscal imposta por beneficiários de altas taxas de juros. Ao lado de outros signatários, participou do abaixo-assinado pela permanência do economista neonacionalista Carlos Lessa na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Seu pensamento conquistou o respeito não só de economistas de esquerda, mas também de outras áreas e outras correntes. Ele conseguia distinguir com clareza as razões de Estado das razões de mercado, destaca Carlos Lessa. Sob seu olhar, a Economia brasileira ganha um viés crítico. De suas reflexões e de suas atitudes, emerge um Brasil com cheiro de utopia, com um elenco de medidas centradas na distribuição de rendas. Enfim, pela sua inserção nas questões sociais, pode-se dizer que Celso Furtado tinha um projeto inquestionável: fazer do Brasil uma nação desenvolvida com menos desigualdade e mais justiça social.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Ciência Política em Londrina
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