Fúria que falta aos brasileiros
Os jornais dizem em manchete que o técnico da seleção brasileira de futebol enfrenta a fúria da torcida, porque não escala o atacante Romário para a Copa do Mundo. Essa reivindicação já não é novidade, mas a constatação que se tira disso é que os cidadãos não têm o mesmo comportamento quando se trata de lutar por causas que tocam mais diretamente a sua vida. Diáriamente se tem verificado manifestações públicas de protesto, em defesa daquela convocação, porém os brasileiros permanecem mudos e inertes ante tantas omissões, intransigências e arbitrariedades que os governantes impõem. Parece que os patrícios só são politizados para as questões do futebol. Raras são as manifestações e quase inexistentes as lutas organizadas em defesa de causas e direitos. Os brasileiros reagem apenas através de resmungos e de conversas em pequenas rodas, e assim o arbítrio dos detentores do poder triunfa soberano.
O Brasil é uma nação de 170 milhões de cidadãos governados por duas ou três pessoas, que ditam normas, fazem e desfazem, em regime de verdadeira ditadura sob a bandeira da democracia, porque todas as instituições estão em vigor e o povo não está impedido de se manifestar. A vizinha Argentina, ora em situação de grande dificuldade, é bem um demonstrativo de que o povo vive o caos mas está nas ruas aos panelaços, em contínuo processo reivindicante. O resultado final e os fatos irão demonstrar será a recuperação da estabilidade e a retomada do crescimento econômico e social, porque os argentinos já conheceram padrões melhores de vida e os querem de volta. Foram as manifestações do povo que derrubaram presidentes e ministros, naquele país, e embora a difíceil situação, manifesta-se ali a democracia plena em busca de uma saída, porque os cidadãos não se omitem. São, antes, os agentes das mudanças que desejam e que inevitavelmente alcançarão.
No Brasil os governantes impõem pedágios ao arrepio da lei, criam impostos ao bel prazer de um ministro, decretam medidas provisórias em pencas, mantém a atividade econômica sob o garrote de juros assassinos, valem-se da roubalheira, presente em todas as escalas do poder, desde a capital da República até os perdidos rincões da pátria, e os brasileiros só lamentam mas nada fazem. Se os cidadãos, ante a arbitrariedade governamental, aprendessem, unidos, a ir dizendo não, modificariam para melhor a face deste Brasil que, afinal, lhes pertence.
Ainda impera a mentalidade de que uma conquista só pode ser obtida pela via de greves, porque esta é a posição mais cômoda, mas se elas às vezes são necessárias, as grandes lutas se travam pela mobilização inteligente, representada pelas recusas em grupo, pela discussão intensa de questões da cidadania, pela apresentação de propostas, pelo cerco aos políticos, por panelaços ou afins que ensurdeçam os ouvidos dos governantes, pela presença das representações populares nos gabinetes governamentais, e outras formas de ação. Exercer a cidadania não é apenas votar, um ato que, no Brasil, morre ali mesmo na sala de votação, porque o eleitor, depois disso, não cobrará mais nada do candidato que elege. Se o povo se cala e consente, não tem nem o direito de queixar-se.





