Fúria pagã no cenário brasileiro
A taxa de inflação do mês de julho deu um susto e produziu uma reação meio exagerada, mas não creio que ameace a meta inflacionária perseguida pelo Banco Central para este ano, de 6% com margem de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Isso porque havia espaço para um certo crescimento dos preços, já que a inflação de todo o primeiro semestre foi muito baixa, de 1,5%, mais ou menos equivalente à taxa de julho.
Quando a meta foi fixada já se sabia que teriam que ser absorvidos no segundo semestre alguns absurdos aumentos de tarifas dos serviços públicos que estavam embutidos no conturbado processo de privatizações.
O que parece ter surpreendido o governo foi a alta dos preços agrícolas, devido à seca em alguns Estados do Sul e ao inverno um pouco mais rigoroso. Ele não contava com a possibilidade desse choque de oferta, como se não soubesse que o inverno no hemisfério sul começa em junho e não em janeiro. De outro modo não teria comemorado prematuramente uma supersafra, que afinal não se concretizou.
De qualquer forma não há razão para que se alterem de maneira importante as perspectivas da inflação para o restante do ano. Ela não deve passar mesmo dos 6% ou 7% projetados. Não há por enquanto problemas de abastecimento e aos poucos o choque de preços dos produtos agrícolas poderá ir sendo absorvido. O que não tem ajudado nesses momentos é a tentativa de alguns setores do governo, mais afoitos e despreparados, de reintroduzir sistemas de controles de preços.
A pior coisa que pode acontecer é o presidente Fernando Henrique Cardoso se deixar envolver pelos burocratas que começam a enxergar a presença de cartéis em todos os setores da economia brasileira. Numa obsessão meio ridícula de aumentar o seu poder de intervenção nas atividades privadas, esses burocratas propõem a transformação de seus departamentos em superagências que na realidade vão apenas reeditar tentativas de controle que já mostraram que não funcionam.
É curioso que isso aconteça num governo que antes acreditava que o mercado resolve tudo e, de repente, passa a procurar soluções no outro extremo. Até há pouco tempo manifestava uma fé inabalável nas virtudes do deus mercado. Hoje, quer rejeitá-las com uma fúria pagã...
Um bom número desses problemas foi criado pela ação do próprio governo na transferência das empresas públicas ao setor privado, quando assumiu o compromisso de conceder aumentos absurdos nas tarifas dos serviços. Essa é uma questão que um dia terá que ser melhor esclarecida.
Não será, porém, com a criação de sinecuras que se vai enfrentar as consequências daquela decisão sobre o comportamento dos preços na economia. No momento, o que o governo pode e deve fazer é voltar suas vistas para a comercialização da produção agrícola, com oferta adequada de crédito para facilitar o seu escoamento do campo para os centros de consumo, de modo a evitar problemas de abastecimento que, estes sim, podem ameaçar a meta da inflação.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP, ex-ministro e atual presidente da Comissão Permanente de Finanças e Tributação da Câmara Federal
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